Som ao vivo ou som verdadeiro?

Há muito tempo venho discutindo a validade da referência musical ao vivo para calibração dos nossos sistemas de áudio.

Recentemente um artigo que publiquei sobre esse assunto foi acolhido pela revista Absolute Sound (e recentemente pela Stereophile), e, segundo a direção da revista, ele causou um grande impacto positivo, fazendo com que todos refletissem sério sobre o tema.

Quando falo em som ao vivo, me refiro não só a uma apresentação musical, mas até ao som gerado na mesma sala de instalação do sistema para efeito de comparação.

Há muitos anos eu costumava usar um instrumento sonoro de fabricação caseira para referência dos agudos em meu sistema, uma idéia bem interessante de uma gravadora audiófila brasileira. Mas, mesmo esse recurso tem se mostrado um caminho errado também no ajuste do sistema.

Nossa memória auditiva é bastante restrita. Na verdade, todos nossos sentidos são pouco precisos. Por mais que treinemos, não conseguimos avaliar com precisão a temperatura de um objeto pelo toque, ou ainda, por mais tempo que dediquemos a olhar uma cor, depois de alguns minutos já temos dificuldade para identificar a cor correta num mostruário contendo tons aproximados daquela cor.
No áudio hi-end também experimentamos esse problema, pode-se chegar bem perto, mas não ser preciso, como exige o próprio conceito audiófilo.

Quem me deu o impulso inicial para criação desta idéia foi um amigo médico, especialista em audição, e alguns livros científicos sobre o assunto.

A audição é um órgão bastante complexo que varia muito de um indivíduo para o outro. É quase como uma impressão digital, mais sutil, mas tão individual quanto aquela.

Depois de exatos dois anos da publicação do primeiro artigo sobre o assunto, posso dizer que me dediquei muito ao estudo deste fenômeno no universo hi-end do áudio, e reforcei minha tese agora com um teste bastante revelador, que é o real objeto deste artigo.

Combinei com oito amigos um teste em casa. Devido a alguns contratempos de última hora, somente seis puderam estar presentes. Exceto dois, o restante posso classificar como audiófilos avançados, que gostam de fazer ajustes continuamente em seus sistemas para extrair o utópico “som perfeito”.

Os resultados foram reveladores, surpreendentes e bastante curiosos.

Antes do início dos testes, ficamos numa sala conversando, sem música e em baixo volume, para “relaxar” a audição. Todos sentiram uma enorme diferença com isso, e por essa razão defendo que, no dia em que for ouvir seu sistema para uma avaliação crítica ou séria, utilize por algum tempo antes um protetor auricular para melhorar a sensibilidade auditiva.
Apenas defendo essa idéia porque funciona, mas na verdade conheci esse recurso numa publicação inglesa. Garanto que vale a pena.

Vamos aos testes…

Os testes duraram quase oito horas, e só finalizou porque todos estavam cansados, apesar de bastante motivados em prosseguir ainda mais nas experiências.

Foram feitos vários preparos, vários testes foram repetidos e inúmeras variáveis foram tratadas. Toda a metodologia e estrutura dos testes será colocada num arquivo para download, pois iria tornar este artigo muito extenso agora.

Foram, no total, seis testes, e relato agora os resultados mais importantes.

Enquanto os outros aguardavam em uma sala, apenas um ouvinte ficava na sala, na posição mais privilegiada de escuta.
Neste momento, um ruído rosa (som sem características definidas, como um ruído contínuo) era reproduzido pelo amplificador. Inicialmente o volume era todo fechado, e então era aberto de dois em dois decibéis, sem que o ouvinte pudesse identificar visualmente a operação (muito fácil já que meus equipamentos ficam em outra saleta, controlados remotamente).

Neste teste, pediam-se duas coisas ao ouvinte: identificar o momento em que ele ouvia o primeiro som e identificar as variações de volume. Para evitar qualquer influência sonora, e estabelecer pontos referenciais, uma pequena lâmpada amarela era acesa periodicamente, quando o ouvinte deveria se manifestar sobre qualquer nova percepção.

Porém, nem sempre o acendimento da lâmpada significava que havia de fato uma variação. Isso foi feito com o objetivo de afastar qualquer sugestão psicológica, vinda de uma possível obrigação de perceber algo.
As falsas variações e sua sequência com as verdadeiras foram idênticas para cada ouvinte.

Neste teste o resultado foi bastante interessante. Não houve sequer uma coincidência na identificação das variações, chegando a ser notada somente depois de 6 dB por um dos presentes, e variando também em relação aos demais. Curiosamente, quanto maior o volume, maior eram os erros e as diferenças entre os ouvintes.

Ficou bastante clara a diferença da percepção de variação da sensibilidade auditiva entre os participantes. Para surpresa, quem ficou em segundo lugar no índice de acertos, foi um dos colegas não audiófilos, que na verdade surpreendeu em todos os testes realizados.
O pior resultado foi com um colega que ouve música em altos volumes. O que parecia ser apenas um gosto pessoal, mostrou tratar-se mesmo de uma deficiência de sensibilidade. Ele atua com atividades ruidosas, e apesar de muito jovem, já demonstra uma audição bastante comprometida. Isso é comum entre músicos, pessoas que frequentam ambientes com sons muito altos (desde shows musicais até indústrias) e até pessoas que dirigem muito e, pior, adoram o “tum-tum-tum” do subwoofer de 15 polegadas instalado no porta-malas do carro.

Em qualquer lugar ruidoso, a recomendação é uma só: utilize protetores auriculares, mesmo que a exposição ao ruído seja apenas esporádica.

Participando posteriormente de algumas etapas do teste, apresentei resultados que surpreenderam a todos. Mas, sempre, desde garoto, fico longe de sons muito elevados. Até mesmo para furar uma parede utilizo protetor auricular para amenizar o ruído da furadeira elétrica. Já cheguei a sair de espetáculos e outros locais por estar sem a proteção auditiva, e por não suportar o som intenso (até criança gritando me causa muito incômodo). Portanto, trata-se apenas de desenvolver um hábito, somente com boa vontade.

Muitos brincam comigo dizendo que escuto até o que não deveria, mesmo muito distante. No escritório todos comentam também, já que discuto vários assuntos que foram conversados três ou quatro salas de distância.
Não tenho a audição fabulosa do Superman, mas ela foi sempre muito bem cuidada ao longo dos anos. Recomendo que cuide bem da sua audição, e não se arrependerá por isso.

Depois destes testes, realizamos outro, desta vez com a orientação do meu amigo especialista em audição. Foi um teste para medir a faixa de freqüências ouvida por cada participante, indo desde as frequências mais baixas (graves) até as mais altas (agudos).

Aqui os resultados foram muito mais alarmantes. Ninguém apresentou a mesma curva de sensibilidade.

Realizei o teste com um padrão utilizado em aplicações científicas, não estes CDs de testes que trazem frequências gravadas que não servem para nada. Na verdade, os harmônicos contidos nos sinais destes CDs são prejudiciais ao teste, e o pior, muitos modificam o silêncio de fundo ou apresentam um leve ruído ao iniciar a reprodução de uma freqüência, o que causa alguma sugestão ao ouvinte.

Outro ponto importante, os sinais devem possuir o chamado “ruído de envoltória”. Ele serve como comparação para identificar o grau de sensibilidade.

Por exemplo, podemos identificar uma frequência de 1.000Hz, mas também confirmar a audição de outra de 30Hz. Porém, simplesmente ouvir não significa dizer que ouvimos bem. O sinal de 30Hz, apesar de ouvido, pode estar com um nível de percepção (volume aparente) bem menor que o de 1.000Hz. Para isso, precisamos “encobrir” o sinal com outro sinal, até que o primeiro seja destacado do segundo. Parece complicado, mas a técnica funciona bem. Este foi o teste mais difícil, demorado e que deu mais trabalho, mas valeu a pena tê-lo realizado.

Dizem que uma pessoa sadia ouve “nominalmente” de 20 a 20.000Hz. Posso afirmar que a realidade é bem outra.

As maiores perdas ocorreram em baixas e altas freqüências, mas foram bastante significativas. Novamente, pessoas que se expunham a sons de elevada intensidade tinham muito mais dificuldade em escutar as freqüências extremas, justamente aqueles que mais tarde reclamariam da falta de graves do sistema, de agudos incômodos, de volumes muito baixos para o gosto pessoal, etc.

Pessoas que cuidavam melhor de seus ouvidos conseguiram resultados melhores.

Os critérios e componentes utilizados para este teste também estarão disponíveis para download.

Outros testes foram também realizados, e vou dizer que, apesar de alguns sustos e colegas decepcionados (outros felizes), foi um teste bastante divertido e esclarecedor.

Não se estendendo mais nos detalhes do teste, podemos firmar com toda a certeza que, indiscutivelmente, existe muita diferença de audição de uma pessoa para a outra.
Estas diferenças, mais tarde, mostraram o quanto influenciam nos testes que realizamos com gravações musicais.

Houve um momento em que alguns participantes me obrigaram a ficar de costas para o sistema e de olhos vendados, pois juravam que eu e outro colega não poderíamos estar ouvindo um determinado som que eles não conseguiam ouvir.
Somente depois, em volume muito elevado, alguns também perceberam o som gravado.

A percepção sonora varia de indivíduo para indivíduo, esta foi a conclusão final.

Desta forma, o que realmente descobrimos sobre o review de um equipamento? Que eles não servem para nada, a não ser que quem vai adquirir o equipamento possua a mesma “impressão digital auditiva” que o avaliador, ou seja, a mesma percepção auditiva.

Até em um teste que fizemos de troca de cabos os resultados variaram muito, de quem não percebia nada, até as variações de resultado entre aqueles que percebiam, e não foi nada subjetivo,  tudo sempre com critérios técnicos e objetivos.

Finalizando, mais uma vez concluímos que cada um ouvirá o som ao vivo de seu modo.

Imaginem alguém que possua uma deficiência na audição de frequências acima de 10.000 Hz. Esse ouvinte vai ouvir um som ao vivo, com uma faixa de frequências atenuada, com importante perda de informação musical nesta faixa. Mas, quando for ajustar seu sistema em casa, e ele tentar reproduzir fielmente o que ouviu ao vivo, vai concluir, de forma errada, que seu sistema estará correto para sua necessidade pessoal.

Caso, porém, ouça um sistema que tenha um reforço nas altas freqüências (existem inúmeros fatores que podem causar isso), vai acreditar que aquele sistema tem muito “brilho”, com agudos evidentes demais e, até mesmo, considerá-los artificiais !!!

Neste ponto, ao se ajustar um sistema pela referência ao vivo, teremos o resultado com todas as limitações que o sistema auditivo humano impõe, porém, de conhecermos estas deficiências e ajustarmos o sistema para compensá-las, passaremos a ouvir não o som ao vivo que identificamos antes, mas o som verdadeiro.

Importante ressaltar que falamos muito em perdas, mas não só de limitações vivem nossos ouvidos. Eles também podem apresentar reforços em algumas frequências, ou mesmo distorções em outras.

Os testes mostraram esses efeitos, e normalmente os reforços aconteceram em algumas frequências médias, e as distorções nos agudos.

Neste último caso, que ocorreu com dois participantes, a utilização de uma caixa com domo rígido se tornou mais desagradável que outra com domo de seda.
Não é uma falha do sistema, pois o domo rígido e leve ainda é considerado por muitos o ideal para reprodução de altas frequências. O que ocorre é uma compensação daquino que alguns chamam de “suavidade” do softdome. Basta dizer que quem mostrou deficiências nas altas frequências foi justamente quem sentiu bastante dificuldade com uma ou outra solução.

A pergunta é: som ao vivo ou som verdadeiro?

O primeiro sempre foi defendido como padrão de referência do audiófilo, o segundo, mais correto, depende de um profundo estudo e conhecimento das características individuais de audição.

É uma bobagem usar controles de atenuação e reforço nas baixas ou altas frequências (os famosos controles de graves e agudos)? Seria mesmo um pecado incluir um equalizador num sistema? Mesmo depois de confirmarmos no teste que existem até mesmo diferenças de um ouvido para o outro… seria mesmo errado ter um controle de balanço entre os canais? Ou, dificultando mais ainda a situação, não seria mais conveniente ter controles individuais de volume e de tonalidades em cada um dos canais (isso será meu próximo projeto)?

Afinal, o que nos interessa, ouvir o mesmo que ouvimos ao vivo, ou ouvirmos todas as nuances e detalhes de uma obra musical como queria o artista?

Se este conceito já foi abordado por alguém, eu desconheço. Mas, nunca vi um audiófilo preocupado com essa abordagem. Sequer li em algum lugar algo a esse respeito.

Mas, o mais curioso é que se pegarmos um livro médico, científico, sobre o funcionamento da audição humana, e levarmos isso para o campo da reprodução audiófila, tudo parecerá muito óbvio, como comentou um dos colegas que participaram do teste: “isto agora me parece tão óbvio”.

O maior problema é que os audiófilos, na sua quase totalidade, montam e aprimoram seus sistemas trocando componentes, quando deveriam começar conhecendo as suas reais necessidades e, somente depois disso, definir o que realmente precisarão para ouvir um som correto.

Claro que existe aquele que definiu seu sistema de forma relativamente correta, mas preferiu ajustá-lo, nem para o som ao vivo nem para aquele que parece mais correto, mas pelo gosto pessoal, reforçando ou atenuando os graves, médios ou agudos.
Isto está errado? Sim, pois conflita com a própria definição de audiofilia e da busca do som perfeito.

Mas, isso é proibido? Eu responderia que não, nem em termos “legais” nem sob o ponto de vista do mais radical dos audiófilos. Então porque reprimir? É gosto pessoal, e isso nos leva para outro terreno de discussão, não aquele a que se propõe este artigo.
Aquele que acredita que seu som é melhor pelos graves retumbante e exagerados de um subwoofer gigantesco instalado na sala, ou do excesso e da baixa qualidade dos agudos causados pela falta de um tratamento acústico sério na sala, também é um sujeito que merece ser feliz, ao seu jeito, e não devemos impor o contrário.

Tanto o estudo que fiz, como os testes e suas conclusões, foram feitos com muita seriedade, de forma responsável e depois de debater suas variáveis com muita gente, desde especialistas médicos até amigos audiófilos europeus, que possuem uma visão mais séria do hobby, e ainda após muita pesquisa em livros e em sites confiáveis da internet.

Não é a primeira vez que abordo este tema, e nestes dois últimos anos tenho me dedicado muito a aperfeiçoá-lo e entendê-lo.

Por parecer um pouco “inovador” demais (se bem que muito lógico), estou preparado para as críticas dos conservadores mais radicais, na forma de somar idéias e experiências, e não de desmerecer simplesmente, sem outro embasamento mais consistente.

Para chocar ainda mais, afirmo aqui que não existe a caixa ideal, o amplificador perfeito ou os cabos mais indicados, e nem poderia haver uma classificação que colocasse um componente numa posição mais privilegiada que os outros.
Reviews? Para mim perderam o sentido. Tratam-se apenas de referências para o acerto individual, mas não pela sua qualificação por pontuação baseada em metodologias muitas vezes bastante suspeitas e comprometidas com outros interesses, sejam de ordem pessoal ou comercial. O que quero dizer com isso? É que uma caixa que recebeu uma pontuação menor por ter os agudos mais evidentes do que o avaliador considera ser o correto, pode ser a aplicação ideal para inúmeros sistemas, onde a outra opção mais “perfeita” (melhor pontuada) deixaria a desejar.

Assim, não confie cegamente num avaliador crítico de áudio. Ele ouve… o que ele ouve !!!

Bem-vindo ao novo mundo do som correto !!!

(tentarei publicar, o mais breve possível, conteúdo com os critérios, equipamentos e procedimentos utilizados nos testes, inclusive as fotos feitas por um dos participantes que quis registrar tudo, por escrito e por imagens)

1 Comentário em Som ao vivo ou som verdadeiro?

  1. Caro Eduardo,
    Sempre surpreendendo com seus artigos bem elaborados, com uma visão elogiável do “misterioso” mundo do entretenimento de áudio e vídeo hi-end.
    Este é mais um daqueles artigos que nos faz pensar e refletir com bastante atenção, nos fazendo perguntar “porque não pensei nisso antes? é tão óbvio”.
    Este foi uma de seus melhores artigos, digno realmente de constar em inúmeras outras publicações, e que certamente mudará a visão que muitas pessoas têm sobre o tema.
    Atuo no mercado de áudio hi-fi e hi-end há mais de 25 anos, e ainda me surpreendo com o amadurecimento contínuo que alguns colaboradores respeitáveis como você trazem para este universo. Ainda bem que existem pessoas sérias e capazes em meio a tantos que mais atrapalham do que ajudam.
    Acompanho as suas idéias de longa data, dos tempos de antigos fóruns de discussão, e você sempre aparece com alguma novidade, algumas que inclusive estão mudando alguns velhos e ultrapassados conceitos do hi-end.
    Apesar de muita gente ter feito nome neste mercado, outro dia conversava com vários amigos sérios e até conhecidos do meio audiófilo, ao final concluímos que duas pessoas ocupariam juntas o primeiro lugar numa lista dos maiores contribuidores para o engrandecimento do hi-end no Brasil, você e o grande Eduardo de Lima (Audiopax), por quem tenho também muito respeito e admiração.
    Parabéns, e não deixe de continuar nos brindando com seus artigos interessantes.

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