Som ao vivo… é mesmo referência?

Um reflexão sobre a validade do som ao vivo como referência.

(de Eduardo Martins)

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Quando tratei desse assunto pela primeira vez, há alguns anos, fui duramente criticado pelos que sempre acreditaram que a participação em eventos musicais ao vivo seria o melhor meio para se ajustar seu sistema de som hi-fi (ou hi-end).
Hoje, vejo que alguns críticos daquela época já começam a pensar sobre o assunto, e dão sinais de que essa referência não é tão perfeita assim.

Para chegar a essa conclusão, observei alguns comportamentos muito estranhos. Dentre esses, um caso me chamou muito a atenção.
Tratava-se de um músico, que participava de uma banda e que estava habituado com a apresentação ao vivo dos instrumentos que utilizavam no grupo.
O curioso é que ele ouvia seu sistema de som em volumes tão altos que incomodava qualquer outra pessoa presente, e costumava fazer referências positivas a sistemas e equipamentos que não eram tão perfeitos assim em termos de alta-fidelidade. Ainda, apontava o seu sistema como um dos mais perfeitos que ele conhecia, opinião não acompanhada pelos seus amigos, que preferiam não contrariá-lo. Além disso, considerava bobagem a utilização de cabos e acessórios especiais para áudio, normalmente empregados em sistemas hi-end, pois para ele não faziam qualquer diferença.
Além dele, observei fatos também curiosos de pessoas que ajustavam seus sistemas pelas lembranças de apresentações ao vivo, mas que visivelmente haviam obtido um resultado aquém daquele que eu e outros colegas poderíamos esperar de um sistema realmente bem ajustado.

Diversos são os fatores que hoje me dão a certeza que o som ao vivo não é uma referência absoluta.
Um dos primeiros fatos que me fez pensar sobre o assunto veio de uma conversa com um amigo médico, especialista fonoaudiólogo, e que também apreciava a reprodução em alta-fidelidade.
Ele me comentou que é um grande erro as pessoas acharem que o que estão ouvindo ao vivo tem correspondência com a realidade, pois as variações do sistema auditivo (*1) são muito grandes de pessoa para pessoa, e em muitos casos apresentam uma perda de desempenho.
Falar em desempenho do nosso sistema auditivo pode parecer estranho, mas quantas pessoas já realizaram um teste audiométrico de qualidade? Sim, de qualidade, pois existem testes audiométricos, segundo esse amigo especialista, que são realizados sem qualquer confiabilidade, seja pelas condições do equipamento utilizado, seja pelos resultados desejados, muitas vezes insuficientes, já que a maioria dos testes é feita para exames admissionais ou demissionais em empresas, e não existe muito compromisso com extrema fidelidade.

Nosso sistema auditivo, para quem não o conhece muito (como eu também não conhecia) é bastante complexo (*2), mas também muito sujeito a danos.
Sons em altos volumes, como do nosso amigo músico, de ambientes barulhentos, ou contínuos, podem provocar grande perda da capacidade e da qualidade auditiva, e em curto espaço de tempo.
A idade, as condições de saúde, doenças, agressões externas (como acidentes) podem também provocar uma perda significativa dessa qualidade de audição.
Veja que o termo “qualidade” tem um significado importante, pois muitas vezes a pessoa pode compreender bem a fala e ouvir com bastante facilidade inúmeros sons, mas isso não significa que ela ouve uma ampla faixa de freqüências como se poderia esperar, muito menos que esses sons não estejam distorcidos ou prejudicados de alguma forma.
Não entrando em detalhes mais técnicos, já que este artigo poderia facilmente ganhar o tamanho de um livro, podemos afirmar que uma das características mais importantes de nosso sistema auditivo é a sua capacidade de perceber sons em uma ampla faixa de frequências. De uma forma bem simples, podemos dizer que um sistema auditivo saudável deveria ouvir sons de baixas, médias e altas frequências com sensibilidade suficiente para que não houvessem perdas significativas.
Mas não é isso o que acontece na prática.
Os problemas mais comuns se manifestam como uma perda da capacidade auditiva nos dois extremos do espectro sonoro, ou seja, nas baixas e altas frequências, teoricamente entre 20Hz e 20.000Hz (Hz = Hertz).
Novamente, reafirmo que não é a intenção deste artigo entrar em detalhes técnicos. Mas, para melhor entendimento, podemos dizer que os sons possuem frequências que vão das mais baixas (sons graves) as mais altas (sons agudos), isso em relação à audição humana. Alguns animais, como os cães, possuem uma faixa bem mais extensa.
A faixa indicada de 20 a 20.000 Hz é bastante generosa, mas freqüentemente utilizada como referência, apesar de pouco realista.

Como eu já disse acima, o ideal seria que cada pessoa tivesse a plena capacidade de ouvir uma faixa bastante ampla, e com uma razoável sensibilidade em toda essa faixa, de forma mais linear possível.
Mas, na prática, isso é muito mais raro do que se imagina.
As maiores perdas costumam ocorrer nos extremos da faixa de frequências, ou seja, nos graves e agudos.
Poucas pessoas cuidam da saúde de seu sistema auditivo, e sequer sabem como fazê-lo.
Desde muito jovem sempre tive uma preocupação muito grande com meus ouvidos, chegando mesmo a não freqüentar salões de dança (na época “disco”) por achar os volumes de som altos demais para um bom conforto auditivo.
Sempre utilizei os conhecidos “protetores auriculares” em locais muito ruidosos, e até mesmo quando utilizava ferramentas elétricas em outro hobby que tanto aprecio, a marcenaria.
Intuitivamente, me sentia bastante incomodado com altos volumes, e evitava-os. Pois, nossos ouvidos podem se ajustar a eles, e aí reside o maior perigo.

Mas, como essa perda auditiva pode excluir a música (ou sons) ao vivo como referência certa no ajuste de nossos sistemas?
É simples. Imagine que essa perda faz com que o indivíduo não consiga identificar totalmente ou parcialmente certas frequências sonoras.
Isso significa dizer que ele possui deficiências para ouvir determinados sons, notas musicais ou instrumentos.
Essa dificuldade existirá na apreciação de um show ao vivo ou eletrônico, no caso de nosso sistema de som.
Assim, tomemos como exemplo alguém que não consegue ouvir plenamente os sons de baixas frequências, aqueles que chamamos de graves. Imaginemos que este indivíduo participe de uma apresentação ao vivo, e não consiga ouvir com plenitude os sons de baixa freqüência de um baixo acústico.
Perceba que sua referência ao vivo já está prejudicada “na fonte”. Quando este mesmo sujeito for ajustar o seu sistema de som eletrônico, vai acreditar que, obtendo o resultado mais próximo do que ele obteve ao vivo, conseguirá a condição ideal de reprodução.
Veja que ele estaria então experimentando em casa as mesmas limitações que presenciou ao vivo. Sua referência ao vivo está errada.
Porém, se ao ajustar seu sistema ele conseguir um reforço nos sons graves, ao ponto de compensar essa perda auditiva, ele estará desta vez experimentando um som real, ou seja, ouvindo plenamente tudo o que está sendo reproduzido, como queria o artista, com as limitações óbvias de um sistema eletrônico, evidente.
Ou seja, nossa primeira conclusão é de que o “som” real não é o mesmo que o “som ao vivo”.
Poderíamos ainda falar nos harmônicos que compõem o som, e chegarmos a conclusões semelhantes, mas complicaríamos demais esse artigo, o que não é o objetivo.

Pela razão acima é que acredito que o preciosismo audiófilo acaba se mostrando muitas vezes um grande engano. Por exemplo, nestas condições mencionadas, a utilização de um controle de graves ou de um equalizador no sistema seriam de grande ajuda.
Mas, os mais conservadores audiófilos diriam que isso acarretaria em perda da qualidade, por ser mais um processamento do sinal.
Isso é uma bobagem. Certamente a perda auditiva e a falta de percepção de determinadas frequências causariam um prejuízo muito maior, além de que a tecnologia disponível hoje tornaria essa implementação pouco ou nada prejudicial à qualidade final.
O mesmo acontece com sons de altas freqüências, os agudos. Mais uma vez, a possibilidade de correção destas frequências tornaria a reprodução mais eficiente.

Para não nos perdermos em detalhes na questão acima, vejamos rapidamente outras variáveis que desqualificam o som ao vivo como referência.
O resultado sonoro de uma apresentação ao vivo é bastante afetado pela acústica do local. Os sons se modificam bastante de acordo com as características da sala de audição. Ou seja, se você participar de duas apresentações de um mesmo grupo musical em salas distintas, possivelmente terá resultados diferentes, e novamente não terá qualquer referência precisa.
Instrumentos musicais também apresentam características sonoras distintas, principalmente os eletrônicos, o que novamente altera significativamente o resultado final de uma apresentação ao vivo.

É claro que não devemos desprezar os sons ao vivo no ajuste de nosso sistema de som. Eles nos dão uma idéia do que devemos procurar, e são de grande ajuda. Mas, precisamos ter em mente que não devemos perseguí-lo com tanto entusiasmo, pois podemos estar acertando o nosso sistema de maneira bastante incorreta.

Da mesma forma, devemos tomar bastante cuidado com aqueles que, na boa intenção de ajudar, fornece palpites em nosso sistema, principalmente dizendo ser um assíduo freqüentador de apresentações ao vivo. Ele pode participar de dezenas ou centenas de apresentações ao vivo, mas se ele não conhecer as suas limitações, de nada servirá tanta “experiência”.

Outro erro comum que freqüentemente encontro em artigos e conversas entre audiófilos, é de que a nossa memória auditiva é bastante curta em relação aos demais sentidos. Isso não é verdade.
Mesmo ouvindo os sons de um tiro de espingarda e de uma pistola (por exemplo) uma única vez, poderemos facilmente identificar qual é qual até num sistema de som sem pretensões hi-fi, claro, se seu sistema auditivo estiver nas mínimas condições saudáveis para isso.
O que não podemos recordar com precisão são as nuances mais sutis destes sons. Mas, isso ocorre também no sentido da visão, do paladar, do olfato e até do tato. Podemos, por exemplo, olhar um carro azul com bastante atenção, mas em seguida se tentarmos identificar a sua cor num papel contendo sutis variações de tonalidade dessa cor, certamente teremos muita dificuldade para identificá-la com precisão. Nossos sentidos não são tão perfeitos assim e, portanto, isso não é uma exclusividade de nosso sistema auditivo.
O problema ao ouvirmos uma apresentação ao vivo é justamente tentar identificar com precisão as nuances daquela reprodução em nosso sistema de som.
Mas, como já vimos, essas nuances ocorrerão também em distintas apresentações ao vivo, portanto, não devemos nos preocupar tanto assim com elas.

Diante disso, insisto que o som ao vivo pode funcionar como mais um recurso para o ajuste de nossos sistemas, mas não é tão confiável e soberano como se imagina.
Certamente receberei críticas por isso, mas pelo que já andei observando, logo essa idéia será bastante aceitável.

Como recomendação para melhor aproveitamento de um sistema de som, recomendo que se considere alguns pontos que enumero abaixo, não limitados a estes somente.

1. Descubra as suas limitações. Faça um bom teste audiométrico, e esqueça as gravações de testes normalmente encartadas em revistas ou disponíveis por aí, com pretensões de substituir um teste com critérios profissionais.

2. Proteja sempre seus ouvidos. Shows ao vivo, aeroportos, trânsito, música em altos volumes, graves exagerados no carro e mesmo em casa, etc. causam grande perda auditiva, e alteram significativamente a nossa percepção sonora.

3. Desconfie se você ou algum amigo seu começar a ouvir sons em volume muito excessivo, não perceber alguns detalhes na reprodução, ou não notar diferenças na troca de cabos e outros acessórios que sabidamente provocam sensível variação na reprodução eletrônica.

4. Habitue-se a usar protetores auditivos em locais ruidosos. Isso não é algo constrangedor. Lembre-se que altos volumes de som não provocam somente perda sensível de audição, mas também provocam outros danos, como até a impotência sexual. Existem protetores bastante discretos e confortáveis.

5. Antes de uma audição mais crítica, ou para uma apreciação mais plena de uma apresentação ao vivo ou em casa, habitue-se a utilizar um protetor auditivo com bastante antecedência, se possível, durante todo o dia, retirando-o somente no momento de apreciar a apresentação. Esta dica foi publicada pela revista inglesa Hi-Fi Choice, e já pude comprovar seus resultados na prática.

6. Não frequente shows onde a insanidade do volume sonoro costuma ser freqüente. Se necessário, fique mais distante dos instrumentos ou das caixas acústicas.

7. Não exagere no volume do subwoofer de seu home-theater. Lamentavelmente, é comum observar que muitos gostam de graves que fazem a sua sala “tremer”. Mas isso na realidade é um grande erro, e que causa sérios prejuízos à audição.
Graves devem ser naturais, e devem estar em equilíbrio com os demais sons.

8. Cuidado com a utilização de fones de ouvido. Não exagere nos volumes quando estiver utilizando-os. Nos enganamos fácil quanto ao volume quando utilizamos os fones.

9. Muitas doenças infecciosas podem provocar danos ao sistema auditivo. Procure sempre se cuidar muito bem para evitar que estas infecções causem mais danos do que o necessário.

10. Não fume. O hábito de fumar também afeta a audição.

11. Tenha um envelhecimento com saúde. Faça sempre exames periódicos e exercícios, e cuide muito bem da sua alimentação. Isso vai lhe ajudar a preservar a sua audição por muito tempo. Saiba que hoje já é bastante comum encontrar muitos jovens com sintomas de surdez, e muitos “senhores” com audição bastante privilegiada.

12. Ajuste o seu sistema de som ao seu gosto. Esqueça essa “frescura” de não poder utilizar controles de graves e agudos, equalizadores, etc. Também já fui convencido disso no passado, e por isso hoje recebo essa e outras informações com bastante cautela. Saiba que alguns dos mais renomados equipamentos hi-end ainda utilizam esses recursos.

13. O som deve agradá-lo. Cada um deve conhecer as suas limitações e corrigí-las adequadamente, sem se preocupar com as opiniões dos “entendidos de plantão”.
Cuidado! Muitos compram um equipamento de áudio hi-end e se intitulam audiófilos. Um audiófilo reúne qualidades que não existem na maioria daqueles que se consideram nesta categoria.

E, lembre-se, o seu sistema de áudio deve ser aproveitado com prazer, da forma que mais lhe convier, e não tornar cada audição um processo de avaliação crítica de suas qualidades e defeitos.
Sejamos audiófilos, e não escravos do perfeccionismo absoluto. Mesmo porque, esta perfeição, ou o “topo do pinheiro” como costumam chamar alguns, é um lugar que não existe.

(*1) Prefiro utilizar a expressão “sistema auditivo” no lugar de “ouvidos”. Na realidade nosso mecanismo auditivo não se limita aos ouvidos somente, mas sim a inúmeras partes que nos levam a percepção sonora.

(*2) Recomendo a leitura do livro “Música, Cérebro e Êxtase”, de Robert Jourdain. Disponível no Brasil, com tradução para o português, pela Editora Objetiva.

2 Comentários em Som ao vivo… é mesmo referência?

  1. Eduardo,

    ¨¨Muito bom!

    ¨¨Vai ser difícil não replicar o meu comentário acima nos demais textos escritos por você.

    ¨¨Fiquei pensando na solidão de alguns apreciadores de música. Apenas em relação as deficiências auditivas e ao “acerto” do sistema”, baseando-se no som ao vivo e levando-se em conta que este tenha sido produzido com perfeição, parece-me que haverá duas situações distintas, inúmeras se considerarmos individualmente o sistema auditivo de cada um. Para simplificar, caso tenhamos dois ouvintes ouvindo o mesmo sistema, tendo um deles um bom sistema auditivo, normal, e outro com o sistema auditivo comprometido, do meu ponto de vista, nunca teremos a sonoridade ideal para ambos ao mesmo tempo. O correto, claro, é que o acerto seja feito pelo que tem o “ouvido ajustado”, mas, desta forma, o que tem deficiência na região dos graves, apesar do som reproduzido ser o correto, não estará ouvindo a contento. Assim, se aumentarmos os graves com um equalizador para compensar a deficiência, supondo que isso seja possível, a fidelidade foi embora para o ouvinte “normal” e ajustada ao segundo ouvinte. De certa forma, mesmo com a mudança, não se deixou de ter fidelidade. Eis mais uma vez a tal da relatividade. Talvez essas situações de ajuste muito individualizado, que geralmente apenas nos satisfaz, obrigue muitos a conviver com a solidão.

    ¨¨Forte abraço.

    Carlos

  2. Carlos,

    Muito obrigado.
    Você captou muito corretamente a idéia do artigo. Muitos ainda têm dificuldade para compreender esta idéia.

    Grande abraço,

    Eduardo

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