Pequenas referências, mas grandes passos na importância da forma como ouvimos a música

Aos poucos vamos vendo novas referências ao que sugerimos aqui há anos.
Será que veremos uma evolução na forma de ouvirmos os nossos sistemas de som?

 

Por: Eduardo Martins

 

Em 2012, iniciei alguns estudos sobre as nossas características auditivas, sugerindo a adequação de nossos sistemas de som para nos oferecer um som mais real do que aquele que o nosso sistema auditivo nos apresenta. Em 2013, iniciei uma série de artigos intitulados de “Rumo à Customização”, publicados aqui mesmo no Hi-Fi Planet.
Este trabalho foi enviado para várias publicações especializadas em áudio na época, além de ter sido publicado em inglês em alguns veículos naquele mesmo ano.

A resistência à aceitação desta ideia foi muito grande, mas isso já era esperado, já que colocava avaliadores e “entendidos” de áudio numa situação bastante desconfortável, e também conflitava com muitos interesses comerciais que até hoje incentivam consumidores a trocar frequentemente os seus equipamentos e a investir numa pilha de acessórios inúteis, fazendo-os acreditar até que cabos possam realmente realizar ajustes precisos na curva de reprodução de frequências de um sistema de som.
Foi a época das canetinhas para pintar bordas de CD, dos anéis para serem colados no centro dos discos para “amortecer vibrações”, das caixinhas magnéticas na parede que alteravam as ondas sonoras, dos produtos “mágicos” para passar na superfície dos discos de vinil aumentando a sua “resolução”, dos fusíveis de 50 dólares capazes de fazer um amplificador de 50.000 dólares dar saltos “gigantescos de qualidade”, e de tantas outras bobagens, algumas que ainda sobrevivem nos dias de hoje entre os consumidores mais desinformados, e que ainda são alimentadas no interesse pessoal e econômico de alguns grupos.

Não pensem que isso vai ter fim. Novas bobagens surgem todos os dias. Recentemente vi o anúncio de uma pequena chave torx banhada a ouro, que ofereceria “mais precisão” no aperto dos parafusos de conectores, e teve comprador que garantiu que sentiu diferença audível com a chavinha “mágica”… cômico, mas é a realidade deste hobby que sempre foi tratado como um “mistério dos bruxos”. Mas, o mundo real é diferente do mundo fantástico que inventam por aí.

Equipamentos de boa qualidade são capazes de oferecer excelentes resultados, e alguns modelos caros já mostraram suas origens em produtos ordinários, travestidos com gabinetes suntuosos de alguma “grife audiófila”. O que realmente importa hoje é como ouvimos tudo isso. Isso mesmo, não adianta ter o melhor equipamento do mundo, equivocadamente ajustado de forma perfeitamente plana, e reproduzindo os melhores discos audiófilos se os nossos ouvidos não têm a mesma precisão de todo esse sistema, e esse é o verdadeiro elo fraco da corrente.

A mudança de conceitos e da evolução é um caminho longo, difícil e de muita resistência.
Mas, se há alguns anos eu pouco encontrava material sobre a adequação de sistemas à nossa audição, hoje encontro algumas referências que vão nessa direção. Não falo de referências científicas, porque isso não falta, mas de referências práticas e mais acessíveis à compreensão popular.
E, hoje, fazendo algumas pesquisas, me deparei com algumas dessas referências que compartilho com os nossos leitores.

A primeira referência vem de uma clínica de recuperação auditiva que trabalha com dispositivos para melhorar a audição, o HearBright Clinic, formado por diversos Doutores em Audiologia.
Navegando por esse site, encontrei um artigo interessante numa página informativa e que diz:

“Se você tem perda auditiva de alta frequência: Como ajustar o rádio do carro

Se você tiver uma perda auditiva de alta frequência, verá que certos ajustes melhorarão a qualidade do som. Esta é uma maneira passo a passo de ajustar seu sistema de som:
Vá para um podcast ou um programa de entrevistas com uma apresentadora.
Encontre uma mulher que fale com uma voz feminina.
Abaixe o volume cada vez mais até ter dificuldade para entender as palavras dela.
A voz dela vai soar abafada para você.
Tendo acesso às configurações do seu sistema de áudio, procure um ajuste para “graves” e “agudos”.
Enquanto ouve a voz feminina, aumente os agudos lentamente até que você possa entender as palavras. Salve suas configurações.
Agora, quando você ouvir sua música favorita no rádio, verá que a música soará muito mais rica e as letras mais audíveis.
https://hearbright.com/latest-news/if-you-have-a-high-frequency-hearing-loss-how-to-adjust-your-car-radio

É uma dica prática e, obviamente, bem simplificada que nos remete à questão de obtermos um com mais “completo” através da alteração da curva de reprodução de frequências. Claro que isso não tem a mesma precisão e nem a mesma abrangência das nossas propostas aqui, com soluções mais completas e mais profundas. Mas, podemos perceber que o conceito que defendemos está aqui de uma certa forma, orientado por especialistas em audição (ciência e profissionalismo) e aplicado na audição de música.
Achei essa referência bem interessante, até porque abordagens como essa não existiam anos atrás, a não ser, extraídas de conclusões de textos científicos, para a tristeza de alguns negacionistas que acham que a sua “impressão” é o que vale.

A segunda referência que encontrei, também hoje, segue numa mesma direção.
Trata-se, aqui, de outro centro científico especializado em audição e fala.

“Os dispositivos auditivos tradicionais são projetados para ajudar as pessoas com perda auditiva a ouvir e compreender melhor as características acústicas da fala, mas não tanto da música. Em homenagem ao mês dos Apreciadores do Jazz, comemorado no mês de abril, aqui estão algumas dicas de audição, truques e acessórios para curtir a música da maneira como músico deseja.”

How to Listen to Music With Hearing Aids


O artigo faz uma abordagem sobre o tema numa direção mais voltada aos dispositivos de audição, mas a referência sobre “curtir a música da maneira como o músico deseja” esbarra no que defendemos aqui, e eu iria mais longe, não só me referindo à intenção do músico, mas à realidade que acaba distorcida pelas nossas limitações.

A terceira referência vem da University of Iowa Health Network, um dos principais centros médicos acadêmicos do país e o único centro médico acadêmico abrangente no Estado de Iowa, nos Estados Unidos, onde encontramos um artigo tratando do mesmo tema que, entre outras coisas, nos ensina algumas dicas para melhorar a nossa experiência de ouvir música, aplicado a dispositivos auditivos, mas com ligação direta ao nosso tema:

“Experimente um equalizador: um equalizador permite que o ouvinte aumente ou diminua o volume das frequências mais altas e mais baixas no equipamento de som. Use um equalizador de interface física ou digital para ajustar o ganho e outras características do som.
Ajuste os tocadores de música para atender às suas necessidades auditivas exclusivas, assim como você ajusta o seu aparelho auditivo!”
https://medicine.uiowa.edu/iowaprotocols/music-and-hearing-loss/hearing-aid-ha-and-music/hearing-aid-ha-pages-ha-users-and-family/tips

Vejam que interessante a sugestão de ajustar o som, em suas frequências, experimentando um equalizador, para “atender às suas necessidades auditivas exclusivas”. Se ampliarmos o nosso entendimento de que o audiófilo é um ouvinte muito exigente, ouvir com limitações ou desvios é quase tão grave como ser quase surdo, afinal, eu não acredito que alguém gaste milhares de Reais ou Dólares em equipamentos e acessórios, dedique também muito tempo em avaliações e ajustes, para ao final se contentar em ouvir um som que foi “ceifado” pelas suas características de sensibilidade auditiva.

Encontrei estas referências dentro de uma busca específica que eu fazia sobre um assunto ligeiramente diferente, mas acredito que se eu for procurar mais informações de uma forma mais direcionada, vou encontrar mais referências sobre o tema, até mais ricas em conteúdo.
Apenas por curiosidade, busquei no Google resultados para “equalizer for hearing loss”, e a quantidade de resultados, inclusive abrangendo a audição de música de alta fidelidade, foi bem generosa… mas… isso ficará para outra oportunidade…

 

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