O vinil vendeu mais do que o CD no primeiro semestre de 2020?

Notícias dão conta que discos de vinil venderam mais do que CDs.
Apesar da comemoração dos defensores do “Analógico”, uma análise mais profunda nos revela alguns dados importantes.

Nestes últimos dias a Internet tem sido invadida por notícias que dão conta que os discos de vinil venderam mais que o CD em 2020, segundo um relatório divulgado pela RIAA (Recording Industry Association of America).
Apesar da comemoração dos “entusiastas” do “Analógico” e dos exageros de algumas reportagens, esta notícia merece uma reflexão mais cuidadosa, pois nos remete à uma falsa ideia de vitória do “Analógico” sobre o “Digital”, ou do “Vinil” sobre o CD”.

Não vou entrar aqui na discussão de qual formato é o melhor, até porque tenho os dois no meu sistema de som, e faço uso de ambos, do analógico, com um sistema de reprodução de Vinil, e do digital (minha preferência pessoal), representado por um sistema para reprodução de CD, XRCD, SACD, DVD-Audio, Blu-Ray Pure Audio, etc.
Não me rendi ainda aos arquivos digitais porque até o momento não adequei o meu sistema para adotar esse formato com a qualidade que eu exijo.
Discutir qual o melhor formato é entrar numa batalha de alguns fanatismos às vezes exagerados, e não é o objetivo deste artigo.

Mas, o que nos mostra o relatório da RIAA, sem levar em conta os exageros destas reportagens que citam, entre outras abordagens, que “o Vinil superou o CD em vendas mostrando a sua força”, ou que “finalmente o CD perdeu o seu posto de vender melhor que o vinil”, ou outras chamadas ainda mais exageradas e equivocadas?

O relatório pode ser baixado aqui: Relatório da RIAA

A primeira informação que deve ser observada aqui é de que trata-se de vendas no mercado americano (USA), portanto, algumas reportagens que vi e que ampliam esse resultado para o mundo todo cometem um grande equívoco.
A segunda informação que extraímos desse relatório é que ele apresenta a receita de cada segmento em dólares, ou seja, quanto entrou nos cofres da indústria da música.

Dito isto, vamos aos números.

Podemos observar que os números apresentados pela RIAA indicam um resultado de receita de vendas distribuída da seguinte forma (em milhões de dólares):
CD: 129,9
Vinil: 232,1
Outros formatos: 4,1
Assinatura digital e Streaming: 4.797,3
Download: 330,4 (somente álbuns e faixas avulsas – excluindo ring tones e outras fontes digitais de menor importância)

O primeiro ponto que devemos lembrar é de que o Vinil custa, em média, o dobro ou mais do que o mesmo álbum em CD. Isso é importante para esta análise de receitas.
Mas, o que mais nos chama a atenção é o volume real de receitas quando visualizado num gráfico em escala, considerando os resultados do CD, Vinil e Download Digital:

grafico-cd-vinil

Pelo gráfico podemos concluir, imediatamente, que o digital sob demanda é o formato com o maior faturamento, superando muito as mídias físicas, considerando que, mesmo o CD sendo uma mídia física, ele também é um registro digital. Ou seja, numa comparação direta entre a distribuição de registros digitais e analógicos, teríamos o seguinte resultado:

grafico-analogico-digital

Esta é a primeira informação que retiramos do relatório da RIAA. O Digital ainda supera muito o Analógico, representando o maior faturamento da indústria.
Portanto, as reportagens com chamadas no sentido de que o Analógico está superando o Digital não fazem o menor sentido.
Isso seria verdadeiro se considerássemos a mídia física somente, mas aí temos outra questão importante: o Registro Digital pode ser replicado e o Vinil não permite essa possibilidade. Assim, uma gravação pode ser enviada, baixada ou ouvida por Streaming sem a necessidade de mídia física e sem nenhuma perda de qualidade. Isso é um fato inegável hoje mesmo no universo audiófilo, onde constatamos uma grande quantidade de consumidores aderindo a esta forma de obtenção de música, restando o CD para um grupo que tende a ser cada vez menor.

Segundo a própria indústria americana, a distribuição legal concorre ainda com um número ainda maior de gravações transmitidas por meio de troca de arquivos e downloads ilegais (“pirataria”), o que faria aumentar a presença do digital para um patamar ainda mais elevado.

Porque somente depois de 40 anos do surgimento do CD no mercado esse resultado seja agora possível?
Essa também é uma questão simples de responder: o próprio CD já está ultrapassado se comparado aos novos formatos de alta resolução de mídias físicas (aqui não consideradas nos nossos cálculos) e, principalmente, dos arquivos digitais.
Desta forma, a retórica de que ainda assim o Vinil faturou mais que o CD em vendas acaba não representando absolutamente nada, já que o consumidor vem migrando para outras formas de distribuição de música digital e que deve ter atingido o seu pico agora, por conta do Covid-19, já que o relatório da RIAA nos mostra um resultado referente ao primeiro semestre desse ano, duramente atingido pela pandemia.

A velha, cansativa e sem sentido discussão entre Vinil e CD já está há muito tempo superada pela evolução da própria tecnologia digital (presente inclusive nos próprios discos de vinil gravados a partir de fontes digitais), e a comparação mais realista e sem sentimentalismos seria entre o Vinil (único sobrevivente da era analógica) e o Digital, não o CD, mas o Digital como um todo.
Neste panorama a situação é muito desfavorável para o Analógico, pois o Digital só trocou de embalagem, mas continua crescendo rapidamente hoje com os arquivos de streaming e download, onde somados, o Digital representa 95,8% da receita das vendas contra 4,2% do Vinil, e essa diferença só tende a aumentar com o contínuo abandono do Digital no formato físico.
Curiosamente, essa conclusão é mostrada no próprio relatório da RIAA, onde ao final ele apresenta outro dado importante, um aumento de 2% para o arquivo Digital e uma queda dos mesmos 2% da mídia física.

Há aqui um grande equívoco ao achar que o CD perdeu agora o seu mercado por conta de um pequeno aumento de vendas do Vinil.
Para entendermos isso, basta percebermos que não existem mais tocadores de CD no mercado. Aliás, é até difícil encontrar nas grandes lojas aparelhos de reprodução de qualquer tipo de disco digital, inclusive de filmes. O mercado vem cada vez mais se ajustando a troca de arquivos digitais, seja de músicas ou de filmes, legalmente ou na forma de “pirataria”, esta última muito mais intensa.
Mesmo os grandes fabricantes de equipamentos de nicho de mercado vêm se ajustando para essa realidade. Se antes os fabricantes de equipamentos de Alta Fidelidade ou Hi-End tinham várias opções de modelos para todos os bolsos e gostos, a maioria hoje dispõe, quando muito, de um ou dois modelos, muitas vezes universais, mas com opções mais generosas para gerenciamento de streaming e outros arquivos digitais.

Levar 40 anos para isso acontecer foi até uma eternidade, e hoje perde qualquer significado.
Alguém pode ainda insistir que Vinil e CD são nichos de mercado, e que então a comparação ainda seria válida. Para o vinil, talvez isso se sustente (são diversos os argumentos dos compradores de Vinil), mas o CD… ele não é mais um nicho de mercado. Mesmo audiófilos e fabricantes de equipamentos Hi-End buscam nos arquivos digitais de alta-resolução o melhor desempenho para a reprodução sonora de seus produtos, e com bastante sucesso nesse objetivo.
Mesmo no caso de filmes, que não tem nada a ver com a discussão musical, é difícil encontrar discos de Blu-Ray ou de DVD para vender (nem pense em versões para 4k). As grande redes de lojas pararam de vender discos há muito tempo em suas unidades físicas (nem as locadoras de mídias físicas sobreviveram), mas nem por isso o comércio de filmes foi interrompido, apenas mudou o caminho de distribuição.

Antes que as reportagens consigam distorcer o significado dessa notícia, é preciso perceber que a velha discussão do Vinil versus CD já acabou há muito tempo, e até me espanta a quantidades de discos digitais ainda vendidos. A batalha perdeu o sentido. A mídia física digital está no fim (até nos computadores para uso com dados).

Em tempo, este relatório ainda nos traz uma última informação interessante, as assinaturas pagas de serviços como o Spotify aumentaram 24%, o que demonstra que os consumidores estão um pouco mais motivados a pagar pela música.

Uma pena que os veículos de notícias (alguns de grande porte e de muita respeitabilidade) tentaram sensacionalizar o fato do Vinil ter tido uma receita de vendas maior que o CD, tropeçando, inclusive, nas informações apresentadas pelo relatório da RIAA, servindo isso apenas para confundir o consumidor e alimentar egos carentes.
Quanto a isso, não importa qual seja a sua escolha, desde que você esteja feliz com ela. Não é preciso apresentar justificativas ou repetir “trocentas” vezes que “o vinil é melhor que o CD”, ou que “o analógico supera o CD”. Esta é outra discussão também repleta de variáveis técnicas e científicas, e, também, de muitos sentimentos pessoais. E, ao final, como já dizem há muitos anos… gosto é melhor não discutir (e nem carece de explicações).

Atualização em 16.09.2020:

Confirmando o que eu já tinha explicado aqui, os números de vendas de discos (unidades físicas) este ano nos EUA até este levantamento foram divulgados:
CD: 10,2 milhões
Vinil: 8,8 milhões

 

for the serious

13 Comentários

  1. Bem colocado, hoje em dia ouço mais Streaming, Vinil e e até a fita k7 do que o CD ou DVD por exemplo, tenho um grande apreço pelo VINIL, mas é preciso um bom equipamento para extrair o que ele oferece de melhor.
    E seja qual for o gosto o importante é ser feliz e curtir suas mídias com muito prazer e sua imensa cultura…

    Abraço,

    Cléber.

  2. Olá Cleber

    Eu não sou contra o vinil, apenas acho que existe um grande exagero e fanatismo por parte de alguns usuários.
    Neste final de semana mesmo eu ouvi um disco de vinil, e comparei com o mesmo título em CD.
    Tudo depende da gravação, se o CD não for gravado com aquele loudness exagerado e vier de uma matriz boa, eu prefiro mais o CD sem aqueles ruídos chatos do vinil, com maior dinâmica, velocidade e extensão.
    Eu conheci sistemas de vinil que são impressionantes, tanto pelo investimento como pelos cuidados adotados, e não acho que eles superem um bom CD gravado, e olha que nem sou muito fã de CD também.
    Minha preferência recai sobre o SACD, DVD-Audio ou BD-Audio. Já ouvi alguns sistemas com reprodução de arquivos de alta resolução, e também são impressionantes. Tenho convicção de que esse é o futuro, mesmo para os mais exigentes audiófilos.
    Devo comentar em breve sobre isso.

    Abraço

    Eduardo

  3. Eu li algumas reportagens sobre isso que saíram na semana passada. Impressionante que uma era cópia da outra. Acho que alguma agência de notícias fez a reportagem e todos copiaram, porque eram os mesmos conteúdos, imprecisos, com erros e sem qualquer avaliação séria.
    Este seu artigo foi o único que vi com o conteúdo correto, com a interpretação precisa e bem feito.
    Duvido que alguém pegou o relatório e o avaliou com a profundidade que você fez. A maioria foi no erro anunciando simplesmente que venderam mais discos de vinil do que CDs, e só vi uma reportagem num site inglês com um conteúdo mais correto, mas ainda não tão completo como o seu.
    Parabéns !!!
    Emílio

  4. Olha, Eduardo… te acompanho desde o HTforum e sempre te admirei muito pela sua sinceridade e bom senso nos seus artigos.
    Aprendi muito com você e se tenho um bom equipamento hoje foi com as suas dicas e a sua experiência, porque depender de lojas, revistas manipuladas pelos anunciantes, fóruns comerciais e a maluquice dos usuários que vivem no passado, eu certamente teria gastado muito mais para ter muito menos.

    Minha experiência com o vinil nasceu por influência de um amigo apaixonado pelo formato, isso há uns 8 anos mais ou menos.
    Ainda hoje mantenho meu toca-discos no rack da sala, mas tenho preferido mais baixar minhas músicas preferidas em alta resolução. Tem muita coisa boa hoje com uma qualidade superior as gravações de vinil. Mesmo o meu amigo que me influenciou nesse mundo do vinil também tem migrado para o digital.
    Não tenho bronca do vinil, apenas acho que o som digital evoluiu muito e este tem sido meu preferido.

    Mas como você costuma dizer, cada um deve escolher o que mais lhe agrada e fim.
    É isso aí, meu amigo. Espero poder apreciar muitos outros artigos seus.
    Te desejo paz e saúde.

  5. Caro Maurício, obrigado pelas considerações.

    O digital evoluiu muito e ficou realmente muito bom (não só no âmbito do áudio), mas o mais importante é adequar o seu sistema de som aos seus ouvidos para que a faixa audível seja apreciada como se deve, ou nenhuma comparação vai oferecer conclusões precisas.
    Esse é o problema da maioria dos apreciadores de vinil, eles criticam os jovens, achando que estes não sabem ouvir música, mas na verdade estes possuem uma audição um melhor e conseguem perceber alguns detalhes que ouvidos mais maduros não conseguem.
    O grande problema da audiofilia é a limitação do audiófilo em querer enxergar apenas equipamentos “chiques” hi-end, e não se preocupar com a forma como os nossos ouvidos estão captando o som, que na grande maioria das vezes está prejudicado pelas nossas limitações auditivas, inclusive ao vivo.

    Uma observação… não existe “som digital”. A gravação pode ser digital, mas tudo é convertido para o analógico antes de termos o som sendo produzido pelas nossas caixas acústicas.

    Abração

    Eduardo

  6. Finalmente alguém publicou a informação correta.
    No mundo inteiro e como não poderia deixar de ser no Brasil, a notícia tem sido veiculada de forma incorreta. Acho que além do HiFi Planet, somente a revista What HiFi publicou a informação da forma correta, mesmo que eles ainda tenham usado um título de intenções dúbias.
    Também ouço vinil e até gosto, mas realmente alguns usuários do formato ultrapassam o limite da coerência e exageram nas suas qualidades.
    Parabéns ao HiFi Planet pelas suas ótimas abordagens. Vejo que a linha editorial de vocês tem migrado um pouco de equipamentos para uma área muito mais interessante e produtiva na busca da experiência de ouvir a boa música reproduzida em sua melhor forma.
    Obrigado

  7. Você disse: …Uma observação… não existe “som digital”. A gravação pode ser digital, mas tudo é convertido para o analógico antes de termos o som sendo produzido pelas nossas caixas acústicas…

    Perfeito !! Foi um equívoco da minha parte.
    Abraço

  8. Grande mestre Eduardo, que bom ver o site com novas atualizações, e com a costumeira excelente qualidade técnica que fez desse site a referência para nós órfãos de informações de qualidade nesse país.
    Agradeço pelas novas contribuições, e torço para que muitas outras venham por aí.
    Um abraço pra você e todos que colaboram com esse maravilhoso site.

  9. Muito bom.
    Eu li um artigo na Rolling Stone que mais 90% das pessoas que compram vinil não possui um equipamento mínimo de alta fidelidade para tocá-los, o que demonstra que a justificativa de busca de melhor fidelidade não cabe como explicação da sobrevida do vinil. O vinil é tido como um modismo e um saudosismo pelo menos no mercado americano.
    Eu tenho um toca-discos de vinil e uma grande coleção de bolachões e ouço com frequência os meus discos. Recentemente um amigo digitalizou um dos meus discos de vinil, o Abbey Road Anniversary. Ele usou um digitalizador externo, não foi pelo PC, um aparelhinho que pagou menos de 300 dolares, e o resultado foi uma gravação que ficou melhor que a original, ele tirou muitos ruídos do disco sem deteriorar a sua qualidade. Pretendo fazer o mesmo com toda a minha coleção, pois percebo que o som dos discos estão perdendo a originalidade, ficando mais chapado e com mais ruídos provavelmente em função do desgaste natural e inevitável apesar de todo o meu cuidado.
    Honestamente não vejo vantagem no vinil hoje. Mesmo que a gravação do vinil tenha sido feito com um cuidado superior ao seu título em CD, basta digitalizá-lo que as qualidades serão todas preservadas.
    A Stereophile já fez uma experiência com a digitalização de um LP, e a conclusão do editor que sempre gostou muito do vinil, foi de que a versão digitalizada em CD ficou melhor, sem saber explicar exatamente o porque. Ele acredita que o fato de seu player de CD fazer uma filtragem interna e um upsample que provocariam alguma melhora na qualidade sonora.
    Eu tenho a convicção de que o digital, principalmente de alta-resolução é capaz de preservar as supostas qualidades que muitos apreciam no vinil, fazendo uma cópia exata deste, e possivelmente melhorá-lo se gravado a partir do mesmo master. Agora, o ritual de colocar um vinil para tocar e poder ler a capa do disco sem precisar dos meus óculos de perto são duas coisas que me agradam 🙂

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