Nem sempre o correto é o correto

Olhando as coisas por um outro ângulo, podemos encontrar novas soluções para velhos problemas.

Interesso-me por áudio há 32 anos.
Comecei a montar meus primeiros amplificadores e caixas acústicas com 16 anos de idade, inclusive valvulados.

Paguei meus estudos iniciais consertando aparelhos de áudio e TVs.

Neste universo do áudio convivi com marcas que inspiravam qualquer apreciador de áudio da época, desde os equipamentos da Gradiente, Polivox, Nashville, Cygnus (para citar alguns nacionais) até ao famosos Teac, Sansui, Garrard, Kenwood e outras raras maravilhas eletrônicas que me chegavam às mãos.

Com o ingresso no universo hi-end, vieram muitas reflexões.

O áudio já não era somente música, mas também precisão na sua reprodução.

Acompanhei inúmeros debates, artigos e outras publicações sobre o tema, nacionais e estrangeiras. Tive contatos com audiófilos de várias partes do mundo, inclusive pessoalmente durante minhas viagens a trabalho.

Tudo é muito parecido, e a sensação de que o áudio hi-end vivia num universo paralelo sempre foi muito grande.

A audiofilia e o hi-end andavam juntos, mas entre os dois sempre houve um espaço bastante nebuloso. Muitas discussões sobre se isso ou aquilo realmente funcionava, ou era imaginação induzida ou mesmo apelo comercial.

Tive muitas decepções nisto que me dedico somente como um hobby. A maioria delas resultado de fanatismo por marcas ou interesses pessoais ou comerciais.

Tive que criar este meu próprio site, para não ter que participar destes interesses que tanto frequentam os fóruns, revistas e outros espaços.

Mas, mesmo me isolando, jamais deixei de ajudar ou compartilhar conhecimentos sobre o assunto.

Muitas coisas eu aprendi sozinho, observando e experimentando antes de concluir algo.

No caminho, algumas desavenças, algumas engraçadas como músico semi-surdo que queria parecer audiófilo, outras nem tanto, como editores de revistas ou sites que se irritavam com as verdades que eu dizia e que conflitavam como interesse de seus anunciantes.

Foi nessa época que criei este site, pois eu podia publicar na íntegra o que escrevia, para comparação com o que “eles” liberavam para a revista. Ao final, concluí que esses conflitos não me interessavam, e eu não precisava disso.

Ainda, durante a minha curva de aprendizado, cheguei a entender algumas coisas que me fizeram ver a audiofilia de outra forma. Inventei o termo “upgrade horizontal” (hoje utilizado até por uma publicação mensal) para descrever a contínua troca de aparelhos que alguns audiófilos faziam, mas que não representavam nenhum ganho na verdade. Era o que eu entendia como “trocar de mãos” apenas. Era mais um prazer pela mudança de equipamento do que de resultado prático.

Também fui o primeiro (até onde me lembro) a publicar um artigo questionando o som ao vivo como referência absoluta. Apesar de criticado por alguns no começo, mais tarde até respeitados especialistas de áudio da Revista Absolute Sound, por exemplo, acolheram com elogios o artigo.

Nestas reflexões, deparei com outro questionamento bastante difícil: qual era afinal o sistema ideal?

Eu comecei com equipamentos relativamente acessíveis, e cheguei a equipamentos muito caros, considerados top de linha por unanimidade em quase todo o mundo.

A questão é: existe mesmo um sistema ideal?

Ao longo de toda esta minha humilde experiência, posso afirmar com convicção que não.

Depois de ler muitos reviews, conhecer muitas salas, interpretar (não somente ler) inúmeros artigos e discussões, entre outros, me convenci que vamos todos na direção errada.

Não é o amplificador hi-end de última geração, as caixas acústicas elogiadas mundialmente, os players de altíssima resolução, entre outros equipamentos, que devem nortear nossa busca pelo “som perfeito”.

Esta reflexão foi uma consequência natural do meu entendimento de que, se você ouve mal ao vivo, vai ajustar também desse jeito o seu sistema.

Vejamos: o que seria de fato o fenômeno da percepção auditiva (mais especificamente aplicada ao áudio de qualidade)?

O caminho é longo. Começa com as características do local onde o som é reproduzido, a forma como chega aos ouvidos, a variação da sensibilidade de cada ouvido para cada frequência do espectro audível, até a interpretação destes sons pelo nosso cérebro, influenciado pelo nosso estado emocional naquele momento.

E posso afirmar uma coisa, nunca vi duas salas iguais, mesmo quase cópia perfeita uma da outra. Nunca vi duas interpretações auditivas também idênticas, e isso confirmei com um amigo médico especialista em audição. Não se acham duas curvas de sensibilidade auditiva versus freqüência iguais. Nossas audições são diferentes.

Como então podemos pontuar precisamente um equipamento dizendo que este é melhor do que aquele? Compreendo hoje que classificar tão precisamente um sistema é uma grande bobagem. A experiência só é válida para uma determinada condição local e para uma determinada pessoa.

A condição local abrange a instalação elétrica, as soluções construtivas de acústica, o comportamento final da própria acústica em razão de inúmeras outras variáveis, e outros fatores, até temperatura.

Uma vez observei um teste comparativo entre dois pares de caixas acústicas, e a segunda recebeu algumas críticas, segundo um dos participantes, por apresentar alguma “sujeira” em uma determinada faixa de frequências.

Desconfiado daquele resultado que me pareceu muito estranho, investiguei a sua causa.

O problema não era do segundo par de caixas, mas do primeiro, que ainda permanecia na sala e seus alto falantes entravam em ressonância com os da segunda caixa, gerando um som paralelo.

Sem entrar muito em detalhes de porque isso acontece, a conclusão que se tira é que é um erro realizar avaliações em salas que, mesmo de “referência”, possuam elementos “estranhos” ao teste. Até mesmo o número de pessoas numa sala influencia os resultados.

E quem realiza a audição do sistema, já fez uma avaliação audiométrica para conhecer melhor a sua capacidade auditiva? Não falo deste exame comum que algumas clínicas fazem por motivos de segurança do trabalho, nem essas de colocar um CD com inúmeras freqüências de áudio e tentar perceber cada uma delas.

Segundo aquele meu amigo médico, o teste correto é muito mais complexo.

Imagine alguém querendo ajustar uma sala ou avaliar um equipamento baseado numa simples comparação com o que ouve ao vivo. As atenuações ou reforços do sistema auditivo desta pessoa, em cada faixa de freqüências, ocorrerão sempre de forma a distorcer e invalidar qualquer conclusão.

Acredito que, antes de qualquer conclusão, devem-se conhecer todas estas variáveis. E aqui vem o objetivo deste artigo.

A identificação do sistema mais adequado para cada aplicação, ou seja, para a satisfação individual, passa pelo conhecimento de todas estas variáveis.

Não adianta adquirir o amplificador com a resposta de frequências mais plana do mundo, se ao final a resposta de seus ouvidos vai criar uma nova curva de audição.

Exemplificando, se um indivíduo possui uma deficiência (nem digo surdez) no extremo superior do espectro das freqüências, vai ter um resultado que não é aquele correto, mesmo tendo-o comparado ao som ao vivo (a deficiência também ocorreu lá) e utilizando equipamentos “quase perfeitos”, que supostamente estariam reproduzindo tudo com absoluta precisão.

Os equipamentos podem estar certos, mas a acústica de sua sala e sua própria percepção auditiva colocará tudo a perder.

Dei um único exemplo de variação bem comum de percepção auditiva, mas ela pode se manifestar como um reforço também em freqüências médias ou baixas, apresentar uma curva totalmente irregular sobre toda a faixa de áudio, ou, ainda, sofrer até uma distorção na forma de um incômodo em determinada passagem de áudio.

Sendo assim, estaria essa pessoa usada como exemplo ouvindo a obra musical com o resultado que deveria? Claro que não, e este é o ponto.

Observe curvas de audiometria, de caixas acústicas, de amplificadores, salas, etc. Perceba o quanto diferentes são uma da outra. Ajustar uma a outra, por experiência própria, é quase uma missão impossível. Mas, se você não compatibilizá-las, pelo menos aproximadamente, o resultado ficará longe do que deveria ser o correto.

Esqueça reviews e equipamentos perfeitos, na prática as coisas não são tão simples assim.

Comece conhecendo a sua sala, vendo como ela se comporta na interação com cada frequência de áudio, não só nas atenuações e reforços destas frequências, mas também na deterioração de outras, na forma de, por exemplo, uma distorção. O primeiro é fácil de avaliar, e existem equipamentos para isso. O segundo é bem mais complicado em condições habituais, mas o bom senso ajuda muito.

Depois disso, conheça a sua curva de percepção auditiva, e como ela varia em diversos intervalos de sua vida diária.

Cuidadosamente, vá criando suas condições de áudio ideal.

Pode parecer um horror para alguns audiófilos que até mesmo um equalizador possa ser a melhor opção, mesmo com suas “supostas” desvantagens (mais interferências no caminho do sinal entre outras, nem sempre comprovadas).

Outra solução? Não construir um sistema tão linear assim.

Como já é sabido pela maioria da comunidade audiófila, alguns componentes podem interferir nas características de determinadas frequências, reforçando-as ou atenuando-as, como os cabos de interconexão, por exemplo.

Mas, ao final, estaríamos então, propositalmente, afastando o nosso sistema de som da condição técnica ideal de trabalho? Sim, exatamente, mas o estaremos aproximando das condições ideais de audição individual, o que é mais correto.

É como ter uma maior sensibilidade visual à luz (como eu tenho). Neste caso, a pouca iluminação trará o mesmo resultado de quem tenha menor sensibilidade e utiliza uma iluminação mais intensa.

Somos humanos, não equipamentos de precisão. Temos que adaptar o mundo às nossas condições individuais, e não àquelas supostamente ideais.

Não estaria, na verdade, muitas das diferenças humanas ligadas às respostas pessoais a cada sensação individual? O café parece muito doce pra mim e não tanto pra você? Seria isso apenas uma questão de gosto? Seria esse gosto, na verdade, uma simples manifestação de sua sensibilidade particular ao açúcar?

Eu diria que é bem possível, depois de conhecer um pouco mais a visão médica sobre as características de nosso organismo. Essa é a vantagem de ter muitos amigos médicos, descobrimos que não somos nada perfeitos.

Tudo isso sem considerarmos a questão da qualidade das gravações, que já é outra história.

Que conclusão tiramos disso?

Bem, a minha conclusão pessoal vai na direção da necessidade de sistemas individuais e personalizados, esquecendo as tão apreciadas classificações dos “reviews”, os equipamentos “muito perfeitos” e as opiniões dos amigos ou de alguns “especialistas”.

Conheça suas necessidades, e adapte o mundo a ela. Suas sensações são suas, de mais ninguém. Assim também deve funcionar em sistemas de áudio.

É nessa idéia que invisto hoje. É esse conceito que tem me proporcionado as mais felizes experiências do prazer da audição de uma obra musical.

Investi, recentemente, em caixas caríssimas, mas que não me agradaram, amplificadores perfeitos, porém com resultados piores que outros até mais baratos que já tive.

Equipamentos mais caros, geralmente (sem sempre), são melhores, mas devem ser escolhidos conforma e proposta aqui

Há pouco tempo adquiri até um equipamento importado para avaliar todas as interações acústicas de uma sala. Foram muitas surpresas.

A avaliação de minha própria percepção acústica também foi muito esclarecedora, com a vantagem ainda se ser bastante correta. Mas, a regra geral é bem diferente.

Se tivesse enxergado isso antes, teria extraído mais cedo o melhor do meu sistema.

Apenas para referência, até as minhas caixas acústicas estão sendo produzidas de forma personalizada, e mesmo essa aventura custando caro, o resultado será mais correto do que se estivesse investindo simplesmente no “melhor” do mercado.

Esta é a minha opinião.

2 Comentários em Nem sempre o correto é o correto

  1. O melhor de usar as ferramentas da internet, é a possibilidade de atualizar o conteúdo com facilidade e agilidade.
    Em menos de 24 horas depois de publicado este artigo, recebi um e-mail do leitor Gabriel Telles com o seguinte comentário:

    Será que quando testamos cabos, caixas e outros componentes em nosso sistema, para fazer a escolha daquele que melhor se adapta antes de comprá-lo, não estamos fazendo justamente o que propõe o artigo?

    Este é um comentário bem interessante, e por isso resolvi publicá-lo aqui.

    Caro Gabriel,

    Perceba que o ajuste que você faz nesta oportunidade que você mencionou acaba baseado no seu “gosto” pessoal.
    Isso não é errado também. Sempre defendi que podemos ajustar nossos sistemas da forma que mais prazer nos proporciona, afinal, este é o objetivo deste hobby.

    Porém, veja que ajustá-lo ao seu gosto, sem referências técnicas e biológicas como aquelas apontadas acima, estaremos fugindo do conceito se reproduzir a obra musical com o resultado que propôs o compositor ou o seu intérprete ou executor.
    Mesmo baseando-se em sua memória auditiva, ou num instrumento de referência tocado na mesma sala, você estará sempre ajustando seu sistema para aquela condição ao vivo, já ajustada, na maioria das vezes, incorretamente pelas características de nossa audição.
    O ideal seria reproduzir a obra, mesmo que com o sistema desajustado, de acordo com seus ouvidos. Por isso citei a questão do equalizador, cabos e outras possibilidades.
    Para isso, o caminho, como também citei, é bastante complicado, mas lhe garanto que vale a pena.
    Digo isso porque um amigo seguiu a recomendação acima, ajustando sua sala compensando todas as variáveis apontadas, e ele me comentou que prefere hoje ouvir a música em sua casa, mesmo com todas as limitações de um sistema eletrônico, do que apreciá-la ao vivo. Ela lhe parece hoje muito mais agradável e “completa”.

    Você pode ter uma experiência ao vivo limitada, mas fazer com que seu sistema corrija esta limitação, e lhe proporcione toda a experiência que a obra propõe.

    Mas, nada impede que você ajuste seu sistema ao seu gosto.
    Apesar do café parecer mais doce para um do que para outro (lembra-se do exemplo do artigo?), nada impede que você aprecie o sabor mais adocicado do café.

    Recebi a visita de um amigo certa vez que, ao ouvir meu sistema, comentou que preferia o som do carro dele. Fui ouví-lo, e os tweeters de corneta associados aos subwoofers utilizados, fazia com que o carro dele fosse uma fonte de “Buuummm e Ssssssssss…”.
    Mas, é o gosto dele, e devemos respeitar. Instruí-lo, mas respeitar o seu gosto.

    Espero ter esclarecido a sua dúvida e agradeço o convite para conhecer o seu sistema. Combinaremos.

    Obrigado pela a sua participação.

    Mantenho-me à disposição para qualquer outro esclarecimento sobre o artigo em questão.

  2. Assisti ao show da Madeleine Peyroux, ano passado, junto com a minha mulher. Por gostar muito dela, curti cada momento.
    Mas, e sempre há um mas, embora todos os instrumentos fossem perfeitamente percebidos e com qualidade, o conjunto parecia provir de um fundo de poço, raso, mas inegável.
    Por outro lado, ao ir buscar a sogra do meu filho em Congonhas, certo dia, ouvi de longe o som de uma banda tocando ao vivo, jazz moderno.
    A primeira coisa que meu filho estranhou, quando eu afirmei que era uma banda ao vivo, foi: como você sabe que é ao vivo? Não dei uma resposta convincente, mas eu sabia que só muitos anos de estrada permitem tais certezas.
    Chegamos ao local e lá permanecemos, aguardando a chegada da senhora que viajava e ouvindo um som muito equilibrado e bem agradável, mesmo em um saguão com teto reflexivo e pisos lisos, além de portas com vidro e tudo o mais que não recomendam os técnicos…
    Por isso, há muito tempo, sedimentei a convicção de que não é o preço que garante qualidade, mas sim o conhecimento de que cada local comporta uma solução particular.
    Gaste quanto quiser, mas aceite o fato de que o mesmo resultado, eventualmente melhor, pode ser obtido com menos. Há, até mesmo, uma certa dose de sorte no processo de montagem e de ajuste de qualquer sistema eletro-mecânico-acústico, dada a miríade de parâmetros envolvidos.
    A sabedoria dos fabricantes de hi-end está na certeza de que um povo mal educado e mal informado irá sempre acreditar no mantra: para ser bom tem de ser caro.
    Aceite meus cumprimentos pelo texto e tenha muita saúde, para prosseguir com o bom trabalho.

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