Limpeza de Contatos

Uma providência com resultados audíveis.

Por:  Eduardo Martins
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Há muito tempo venho querendo escrever algo do tipo “passo a passo” sobre limpeza de contatos. Esse é um tema muito importante, mas pouco comentado com os necessários detalhes.

Para se ter uma idéia do quanto uma limpeza de contatos é importante, posso afirmar que muitas diferenças atribuídas a troca de cabos acontece simplesmente por conta da limpeza da superfície do novo conector, ou simplesmente pela “raspagem” da superfície contaminada pela troca dos cabos.
Participei de um teste de cabos onde, notoriamente, havia uma diferença entre o cabo já instalado há algum tempo no equipamento, e aquele novo, colocado para teste. Pedi a oportunidade de limpar os contatos do cabo antigo, e a diferença desapareceu completamente.
Por isso, antes de pensar em trocar de cabos, ou testar outros novos, faça uma boa limpeza nos contatos do cabo antigo.
Para efeito de manutenção preventiva, recomendo uma limpeza à cada 6 meses, ou menos, se tratar-se de local litorâneo, onde o ar é mais agressivo.

O que são “contatos”? Como o próprio nome diz, são superfíceis de contato entre partes condutoras, normalmente sob pressão, que têm por objetivo estabelecer um caminho para a passagem do sinal elétrico.
Quanto “torcemos” as pontas de dois fios, estamos estabelecendo o contato entre eles, e o sinal elétrico passará de um fio para o outro por esta superfície de contato.
Os conectores de nossos equipamentos de áudio e vídeo não são diferentes. Através de plugs machos e fêmeas, RCA, banana, tomada de força, etc, um contato elétrico é estabelecido.
Até mesmo o contato elétrico da tomada de força tem muita importância, pois é um dos que estão mais sujeitos aos danos causados pela oxidação do ar, normalmente por não possuirem superfície de proteção. E isso não é só para áudio, muitas tomadas de uma casa são danificadas pelo aquecimento oriundo do mau contato causado por terminais com superfícies de contato prejudicadas.

Voltando aos nossos equipamentos, o principal elemento para a realização de uma limpeza de contatos com sucesso é a pré-disposição.
Se você não estiver muito disposto à isso, nem comece. É um trabalho demorado e cansativo, e requer bastante boa vontade para que fique bem feito.
Arrume uma posição confortável, numa temperatura agradável, e prepare-se para uma jornada que ao final trará resultados bastante compensadores.

Uma questão importante é sobre o material a ser utilizado no processo de limpeza.
Como a limpeza consiste em reestabelecer a pureza da superfície do condutor, retirando a oxidação do mesmo, fica claro que um processo abrasivo se faz necessário. Existem diversos produtos no mercado para a realização desta limpeza. Alguns com grife, especialmente indicados para áudio, e outros comuns do dia a dia. Meus testes com os produtos químicos de imersão ou simples aplicação com flanela ou pincel, foram desastrosos. Nenhum destes produtos testados, disponíveis no mercado, apresentou o resultado esperado, e o pior é que são famosos e respeitados. Alguns chegaram a piorar a situação, deixando resíduos ou tornando a superfície oleosa.
Não se limpa contatos com óleo. Nem se finaliza o trabalho com uma camada de óleo para “proteção”. Isso trará problemas a curto prazo. WD e outros óleos finos, nem pensar.

Para o processo de limpeza algumas decisões devem ser consideradas.
A melhor forma de limpeza que já conheci foi aquela feita com um pedaço de pano e um produto relativamente abrasivo, e aqui está o primeiro problema.
O produto que proporcionou os melhores resultados nesta tarefa foi o polidor líquido Brasso. Porém, ele é bastante abrasivo, e contatos banhados à prata ou ouro, depois de algumas limpezas, e dependendo da espessura da camada da superfície de tratamento, podem começar a perder o material nobre.
Eu nunca tive esse problema. Utilizo cabos da Siltech, By Knirsch, Audioquest, Kimber e outros, e todos ainda preservam o material da superfície intacto. Mas, já vi poucas operações de limpeza retirar a camada de ouro, prata e outras de alguns conectores WBT, Monster, Nordost, Audio Research e outros, normalmente por possuirem um banho de superfície muito fino, e até mesmo a abrasão da retirada e colocação destes conectores já pode danificá-lo.
Acredito que cabos devem ser substituídos depois de alguns anos de uso, até porque a tecnologia está em constante evolução, e novos modelos devem apresentar melhor desempenho, apesar de nem sempre isso acontecer.
Mas, para quem quer preservar seus cabos por muito tempo, então uma outra solução menos abrasiva pode ser utilizada. Neste caso, pode-se optar por algumas ceras de automóveis. A Grand Prix é uma cera menos abrasiva, e que ainda fornece uma camada protetora à superfície. Eu prefiro que não reste nada de material, mas não tenho percebido problemas práticos por conta dessa camada protetora. Outras ceras, inclusive líquidas, podem ser utilizadas, evitando-se aquelas para “pinturas queimadas”, que são bem mais abrasivas.
Como solução menos agressiva, pode-se utilizar também o Tetracloreto de Carbono, uma substância extremamente volátil (de secagem muito rápida), ou o álcool isopropílico. Nestes casos o resultado não será tão perfeito, mas poderá ajudar muito, e assim evitando o desgaste prematuro da superfície.
Veja que também o exagero da limpeza pode causar este rápido desgaste. Não é preciso ficar horas polindo os contatos, basta retirar a superfície prejudicada, nada mais. Lembrando que faço limpeza periódica nos contatos de meus cabos e equipamentos, com frequência até maior que a que recomendei, e até agora não tive qualquer problema desse tipo. Por isso, é bom sempre adquirir produtos de boa qualidade, que suportem estas limpezas,

Uma última dica, adquira alguns “limpadores de cachimbo” em tabacarias especializadas. São vendidos avulsos ou em envelopes plásticos com várias unidades. Não são caros, e ajudam enormemente no trabalho, acessando locais de difícil acesso, com bastante resistência.
São fabricados normamente com finos fios de arame trançados com um material macio enrolado sobre ele.
O único cuidado é evitar que o arame fique em contato com as superfícies de contato, o que pode riscá-la. Para isso, deve-se substituí-lo logo que o arame começar a ficar exposto.

Depois de feita a limpeza, aguarde o funcionamento do equipamento por algumas horas, e depois avalie os resultados.
Em minha última limpeza percebei claramente os resultados positivos desta operação: graves mais precisos e sem o exagero percebido antes, médios mais claros e agudos mais naturais. tudo ganhou mais precisão, mais clareza e, repito, de forma bastante evidente.

Feito esta introdução, e de posse do material, vamos à obra…

Limpeza de Contatos

Passo a Passo

1. Os conectores do tipo fêmea banana, utilizados para ligações de caixas acústicas, são bastante práticos, e fáceis de limpar.
Com a haste de limpeza de cachimbos, já mencionada anteriormente, e dobrada uma vez, a operação é muito simples. Basta umedecê-la com o produto de limpeza, sem exagero, e introduzí-la no conector, limpando-o cuidadosamente com suaves fricções. Depois de limpo, refaça a operação com uma outra haste seca, para retirar os vestígios do produto e proporcionar o brilho que confirmará o sucesso da operação.
Na foto abaixo essa operação é melhor ilustrada, e no destaque é possível notar a haste limpadora com os resíduos de oxidação. Não exagere na limpeza, ou o que será retirado é a própria camada do banho, que também pode escurecer a haste.

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2. Os terminais banana são limpos com um pedaço de pano, levemente umedecido com o produto de limpeza.
Veja na foto abaixo o contato original já oxidado, e em destaque depois da limpeza.

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3. Recoloque os cabos em seus lugares. Eles devem ficar bem firmes, com boa pressão de contato, e sem dobras ou torções, como na foto abaixo.

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4. Os plugs de tomada de força podem ser limpos introduzindo um cartão, ou papel dobrado entre seus contatos, com um pouco de pressão, também umedecidos com o produto de limpeza, e depois com o mesmo material seco.
Aproveite para dar mais pressão nos contatos, o que pode ser feito com um pequeno alicate de bico, e também para reapertar parafusos de fixação que possam existir, como no caso deste cabo na foto.
Se quiser melhorar ainda mais, solte os fios dos terminais e limpe os dois também.

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5. O resultado da limpeza:

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6. O conector de força do aparelho também deve ser limpo, e isto também pode ser feito com a haste de limpeza, conforme mostrado abaixo:

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7. Os conectores RCA fêmeas devem ser limpos internamente como mostrado na figura abaixo, usando as hastes de cachimbo levemente umedecidas com o produto de limpeza (aqui no caso com o polidor).
Elas podem ser dobradas para melhor uso, mas o final da ponta dobrada não deve entrar totalmente no conector, ou pode ser difícil retirá-la de lá.
Use uma outra haste limpa para o polimento final e retirada dos vestígios do produto limpador.

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8. A parte externa do conector RCA pode ser limpa com um pano e o produto de limpeza. Aqui também deve ser feito o polimento final com o pano seco.

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9. Observe na foto abaixo os 4 conectores à esquerda limpos, comparados com aqueles à direita, ainda sem terem sido limpos, ambos banhados à ouro.
Os conectores limpos à esquerda possuem uma aparência dourada suave e brilhante, enquanto que aqueles que não foram limpos se apresentam com uma cor amarelada forte e sem brilho.

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10. Os conectores RCA machos também são facilmente limpos com as hastes de limpeza.

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11. Aproveite para abrir os conectores e verificar a conexões internas, reapertando-as se necessário. No caso abaixo, o fio central do cabo estava “frouxo” dentro do pino do conector, e o parafuso que o prende foi reapertado.

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12. Uma boa providência é, aproveitando a oportunidade e se ainda não foi feito, colocar folhas isolantes entre os conectores. O ideal é que as capas metálicas dos conectores não fiquem se tocando. Na foto abaixo, pequenas folhas plásticas duras foram suficientes para esta finalidade.

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13. Cabos grossos tendem a forçar as conexões, prejudicando-as. Improvise um suporte para apoiá-los próximo ao equipamento.

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14. Por último, cabos não devem ficar presos uns ao outros, mas também não precisam ficar espalhados de qualquer jeito.
Organize-os, predendo-os sempre que possível. Não deixem cabos correr juntos encostados em paralelo. Se for necessário, cruze-os sempre perpendicularmente.
Não deixe cabos de força próximos aos cabos de interconexão. separe-os bem.
Não dobre e nem enrole os cabos. Encurte-os se for necessário. Mas, cuidado, pois alguns cabos tem comprimento determinado por projeto, segundo suas características técnicas. Não deixe os cabos caídos junto ao chão.
Não passe cabos de vídeo próximos aos de áudio.
Não aperte demasiadamente os cabos com conectores roscados de pressão.
Substitua cabos ou conexões com pouca pressão de contato, ou “aperte-os cuidadosamente” para melhorar a pressão.
Somente faça comparação entre cabos depois de limpar as conexões do aparelho e dos cabos a serem testados.
Cuidado com produtos de limpeza que fazem milagres, principalmente em spray, e não utilize óleo nos conectores. As conexões devem estar limpas e secas. Somente isso.

Garanto que esse procedimento lhe trará resultados práticos e de forma econômica.
Vale a pena o tempo investido nesta operação de “faxina”.

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6 Comentários em Limpeza de Contatos

  1. Eduardo, simplesmente a melhor documentação que já li a respeito de “Limpeza de Contatos” dos nossos sistemas. Já recomendei o link aos meus amigos. Parabéns, mais uma vez ! Abrço.

  2. Gostei demais deste artigo! Já comprei os produtos para a limpeza e mal vejo a hora para fazê-la.
    Gostaria de saber se é recomendável limpar os bornes das caixas também?

    Abraço!

  3. Confesso que depois que li esse artigo, eu fiquei muito ansioso para limpar os conectores dos meus aparelhos. Depois que comprei todo o material, finalmente fiz a limpeza e os resultados logo apareceram.
    Muito bom!

    Parabéns!

  4. Antonio,

    É uma pena que pequenas providências como esta sejam ignoradas por quem teria a obrigação de informar.
    A limpeza de contatos é um procedimento periódico obrigatório para quem quer manter o seu sistema funcionando perfeitamente.
    Esta é outra origem de conclusões equivocadas no teste comparativo de cabos. Coloca-se um cabo novo com bom contato no lugar de outro que já apresentava oxidação e, por conta disso, apresentava uma queda de desempenho, e aí se conclui erroneamente que o cabo novo é superior ao primeiro.
    Isso não é uma suposição ou algo “subjetivo”, é fato cientificamente provado, e eu já cansei de presenciar situações como esta.

    Parabéns pela iniciativa.

    Abraço

    Eduardo

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