E a velha desculpa de que instrumentos não podem captar o que ouvimos…

O mercado ainda acredita nas justificativas mais frágeis possíveis para explicar algumas ilusões do lado fantasioso do universo do áudio “Hi-End“, relatando até mesmo experiências impossíveis. Porque isso acontece? A resposta está aqui.

Por Eduardo Martins
Quando lhe falta um argumento consistente, a desculpa mais comum que um audiófilo usa para explicar uma mudança injustificável (e inexistente) em seu sistema de som é que os ouvidos não enganam, e que a ciência não pode medir tudo o que ouvimos.
Alegar isso no mundo atual é ignorar a evolução da ciência e acreditar que muitas coisas acontecem pelo acaso ou por “forças sobrenaturais”.

Vamos ser bem práticos aqui e mostrar porque essa afirmação de que podemos ouvir mais do que os equipamentos podem medir não se sustenta.

O que é o som?
Vamos começar por aqui para poder fazer o caminho inverso e entender o mecanismo do surgimento do som.

O som que ouvimos é, na verdade, uma onda capaz de propagar-se pelo ar a partir da vibração de suas moléculas.
Por isso, o ar sem nenhum movimento não nos faz perceber qualquer som (nossos tímpanos não são estimulados), e por isso, também, não escutamos som no vácuo. Se colocarmos uma caixa acústica dentro de um local ser ar, poderemos ver os cones se movendo, mas nenhum som será percebido.
Mas, eu acho que isso todo mundo já sabia.

Continuemos…

Como a música reproduzida pelo nosso sistema de som surge num ambiente?
É fácil entender que é pela movimentação dos cones dos alto-falantes de nossas caixas acústicas, pela fita metálica de um tweeter ribbon ou outros transdutores.
O movimento de um cone de alto-falante, de acordo com a sua intensidade e frequência, vai provocar a agitação do ar de tal forma a produzir um som com estas características de frequência e intensidade.
Até aqui acho ainda estamos no óbvio. Então, vamos tentar complicar?

Como o cone do alto-falante se move?
O movimento do cone é coordenado pela corrente elétrica que circula numa bobina. Dependendo da intensidade dessa corrente e da sua frequência, um campo magnético é criado contrapondo-se ao campo magnético de um imã fixo (ainda tomando como exemplo um alto-falante comum utilizado em nossas caixas acústicas).
Se lembram da historinha de que polos contrários se atraem e polos iguais de repelem? Pois é, esse conhecimento, que não é nada novo, foi utilizado na invenção do alto-falante de uma forma bastante simples, e assim o campo magnético gerado por uma bobina presa ao cone do alto falante faz uso da corrente elétrica que circula por ela para se alterar e provocar diferentes movimentos do cone.

E de onde vem essa corrente elétrica?
Ela vem do nosso amplificador, que aumentou a sua intensidade a partir de um sinal elétrico mais fraco que foi ampliado, para conseguir energia suficiente para provocar a movimentação dos cones dos alto-falantes.
Essa corrente elétrica possui características do som gravado que está sendo reproduzido.
E de onde veio essa corrente elétrica com essas características? Ela veio de um microfone (ou outro transdutor) que fez o inverso, captando o movimento de ar provocado pelos instrumentos sonoros e as vozes dos cantores e transformando tudo isso em corrente elétrica.

Que pena! Está difícil complicar, já que tudo o que foi dito aqui ficou dentro do óbvio.

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Acima, ilustração do funcionamento de um alto-falante. A variação da corrente elétrica nos terminais da bobina (C) cria um campo magnético variável que interage com o campo gerado por um imã fixo (B), Como esta bobina está presa num cone flexível (A), este se movimenta pela atração ou repulsão das forças magnéticas agitando as moléculas do ar e produzindo o som.

Mas, o importante é entendermos de uma vez por todas que a movimentação dos cones dos alto-falantes de nossas caixas acústicas será resultado das características da corrente elétrica que circular por eles, sem nenhum milagre. Ou seja, modifique essa corrente e os alto falantes se movimentarão de um jeito diferente provocando um som também diferente (perceptível ou não). Simples assim. Não tem o que inventar para complicar.

Agora, para concluir esse entendimento, é fácil perceber que qualquer mudança no som só ocorrerá com a alteração das características desta corrente que chega às nossas caixas-acústicas. Os alto-falantes nunca se movimentarão de forma diferente se não houver qualquer alteração das características dessa corrente elétrica.
Para a nossa sorte, temos equipamentos hoje muito mais capazes e precisos para analisar essa corrente com uma sensibilidade maior do que a própria capacidade dos alto-falantes em percebê-la, e ainda muito maior que a sensibilidade de nossos ouvidos em reconhecê-la.
Quer um exemplo? Se a potência elétrica aplicada num alto-falante for o dobro, seremos capaz de ouvir uma alteração na intensidade do som de apenas 3dB, ou seja, uma sutil alteração de volume. Não ouviremos o dobro do volume sonoro com o dobro da potência elétrica aplicada a um alto-falante.
Repetindo… a potência tem que quase dobrar para percebermos alguma alteração no nível de volume.

Instrumentos hoje podem medir ou até mostrar o sinal elétrico numa tela com uma sensibilidade muito maior do que a menor corrente elétrica possível, e numa faixa de frequências milhares de vezes mais amplas do que os nossos limitados ouvidos podem captar. A faixa de frequências percebida pelo ouvido humano é bastante estreita e de fácil composição, considerada, idealmente, de 20 a 20.000 Hz (ciclos por segundo). Para efeito de comparação, cães podem ouvir numa faixa de 10 a 50.000 Hz e golfinhos de 70 a 240.000 Hz.
Mas, equipamentos eletrônicos ultrapassam muito essa faixa, como as frequências de transmissão de rádio FM, de 87.800.000 a 108.000.000 Hz, ou transmissão de imagens de televisão comercial, de 30.000.000 a 3.000.000.000 Hz (VHF e UHF), enquanto serviços de transmissão de satélite, por exemplo, podem chegar a 30.000.000.000 Hz.
Para efeito de comparação, ilustramos abaixo, em escala, como a faixa audível é bastante modesta:

grafico-comparativo-audicao-humana

Não se espante, não há nenhum erro no gráfico acima. Realmente a faixa de audição humana comparado com o limite máximo do exemplo da transmissão de satélite sequer consegue ser demonstrada num gráfico deste tamanho.
Ou seja, a tecnologia pode gerar, manipular, controlar, e utilizar frequências muito maiores e muito mais complexas do que se poderia acreditar. Este é só um exemplo, mas podemos passar muito facilmente essa faixa. Então, a faixa de áudio é, na verdade, muito estreita e muito fácil de medir, observar numa tela de instrumento e de identificar qualquer mínima mudança.

O que eu quero demonstrar até aqui? Que não existem mágicas, forças ocultas ou inexplicáveis para nos fazer ouvir algo que não apresentou uma correspondente modificação elétrica e mecânica, ainda lembrando que, neste caso, a modificação mecânica é decorrente da alteração da corrente elétrica. Frequências, intensidades, harmônicos, distorções, ruídos… tudo pode ser medido e até visto graficamente.

Se alguém diz que num teste de cabos, de fusíveis ou qualquer outro equipamento ou acessório percebeu um aumento na extensão de agudos, ele está afirmando que houve um aumento na intensidade da corrente elétrica na faixa dos agudos (amplitude), ou que essa faixa de frequências foi ampliada para acomodar frequências mais altas (largura).
E isso tudo, para a decepção de alguns “subjetivistas”, pode ser medido e até visto com muita facilidade, e se não for identificada qualquer modificação de parâmetros, então não existiu tal alteração. Lembrando que, para percebermos qualquer mudança sonora, precisamos de muito mais potência elétrica para isso, o que é obtido com o aumento de intensidade de corrente que circula na bobina dos alto-falantes.

Do mesmo modo, quando alguém diz que percebeu que os graves ficaram mais “embolados” ao trocar, por exemplo, um cabo de conexão, tem que ter havido uma alteração no movimento dos cones do alto-falante para que esse efeito ocorresse, obrigatoriamente. E isso também pode ser facilmente medido ou visto através de instrumentos de medição apropriados.
De qualquer forma, mesmo que o ouvinte perceba uma mudança sutil no som, as variações de corrente deveriam ser muito facilmente percebidas para provocar qualquer efeito.

Eu já fiz muitos testes com vários amigos, e isso não é segredo pra ninguém. Não são apenas testes cegos, mas ardilosos também.
Nestes testes cheguei muitas vezes a usar um analisador de espectro de áudio de alta precisão que eu possuo, para poder avaliar mudanças nas faixas de frequências, além de outros instrumentos auxiliares, e não confirmando estas alterações nas leituras dos instrumentos, simulei situações onde ficou nítido que muitas vezes estas mudanças percebidas “com certeza” não passavam de mera sugestão.

Os fabricantes, se aproveitando dessa facilidade do efeito sugestivo, inventaram todo tipo de bobagem retórica para tentar justificar as “qualidades” de seus produtos.
Os comerciantes também reforçam essas fantasias ao consumidor final, pois, óbvio, eles querem vender. E muitas vezes estas argumentações servem para elevar o preço do produto, afinal, uma margem de lucro de 10% sobre o preço de um produto que custa 100 mil é muito mais interessante do que outro que custa 10 mil, ou não?

Eu já vi no passado gente comprando canetinhas “hi-end” para pintar a borda dos CDs, porque a tinta eliminava a “fuga de luz“. Já vi também quem defendia vigorosamente as incríveis vantagens de dispositivos de controle de vibração que usavam esferas em superfícies côncavas para controlar a oscilação horizontal, e hoje já se sabe que isso não funciona.
Já vi avaliadores de áudio afirmando que fusíveis “audiófilos” provocaram ganhos “enormes” de qualidade sonora, mas hoje estão quase em desuso e  raríssimos fabricantes adotam esse componente em seus caríssimos equipamentos de milhares ou centena de dólares, mesmo esse componente custando algumas poucas dezenas de dólares para eles no atacado, e que “poderia” lhes dar um “salto enorme” na qualificação e no prestígio de seus produtos.
O mercado parece às vezes ficar eufórico com as “grandes mudanças” supostamente provocadas por um novo componente, mas depois abandona a ideia porque descobre que ela não funciona. Mas, não funcionava antes? Curioso, não?

Mas, o fato é que se podemos ouvir, podemos medir, e isso não está aberto a controvérsias. É fato, aceitem ou não. A movimentação dos cones de um alto falante e a produção do som não ocorrem por mera obra do acaso. São fenômenos físicos muitos conhecidos.

Hoje alguns “subjetivistas” ainda defendem que pouco se conhece do cérebro e do seu comportamento, falam em “psicoacústica inexplorada” e até em nanociência para tentar convencer que a coisa toda é tão complexa que não pode ser facilmente explicada. Porém, isso tudo não se sustenta para desmerecer a medição e a comprovação objetiva dos efeitos que desencadeiam o som.
O próprio cérebro reage em função dos impulsos elétricos recebidos pelo nosso sistema auditivo. Se os nossos ouvidos captarem uma mudança, ele vai processar isso, se não captarem, não há como ele “adivinhar” qualquer coisa. Pelo contrário, o nosso cérebro pode sim criar convencimentos psicológicos, gerando uma sugestão que entendemos como verdadeira, mas que não é.
Porém, isso não vem do processo auditivo, mas de uma reação interna do próprio cérebro que não corresponde à realidade.
Se você não acredita nessa capacidade do nosso cérebro de inventar coisas, então lembre-se de como ele é capaz de criar medo, alegria, sustos e até nos convencer de situações bem realistas em nossos sonhos. O sonho é um exemplo de realidade fantasiosa criada pelo nosso cérebro, não é real por mais convincente que pareça, nem diante das emoções e as sensações provocadas.

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Conversando uma vez com um amigo, fizemos um paralelo com um carro.
Você sai de um carro pequeno, com motorização fraca e barulhenta, e compra outro maior, mais potente, mais estável, mais macio e muito mais silencioso, e um dia na estrada você percebe que está correndo muito mais do que deveria, mas a sensação era de estar a 90km/h mesmo descobrindo que estava a 120.
Podemos ver que fomos induzido ao erro. A sensação era uma e a realidade era outra.
Mas, um medidor de velocidade nos mostra uma realidade que o nosso lado subjetivo nos fez enganar.
Este meu amigo argumentou que, de qualquer forma, sentimos uma diferença grande entre os dois carros. Sim, a sensação de andar no primeiro carro foi diferente do segundo, porque, novamente, o nosso cérebro nos enganou. Ele usou como base as reações do carro antigo para “sentir” o novo e nos levou ao erro. E, de qualquer forma, isso pôde ser constatado pela medição de velocidade e explicado pelo nível de ruído, pela potência do motor, pela oscilação da carroceria (conforto), pela aceleração lateral (estabilidade), etc. Ou seja, mesmo havendo uma mudança real de comportamento do carro, o nosso cérebro se enganou nesta avaliação. A sensação de estar mais devagar não se sustentou com as medições reais.

Talvez nem precisemos ir tão longe, basta vermos na medicina como funciona o efeito placebo. Os médicos (não os audiófilos) fazem uso do placebo para criar uma sugestão e muitas vezes até provocar uma reação física ou emocional, porque o nosso cérebro se engana e é capaz até de curar o nosso corpo ou nos fazer adoecer acreditando numa farsa.
Quando alguém diz que os nossos ouvidos não nos enganam para valorizar a sua confiabilidade, essa pessoa comete um engano conceitual, pois de fato eles não nos enganam, quem nos engana é o nosso cérebro. Mas, isso é muito diferente de dizer que os nossos ouvidos são confiáveis, pois não são, porque existe a questão das limitações e desvios naturais do nosso sistema de captação auditiva. Mas, alguns audiófilos tratam as duas coisas como sendo uma só, justamente pela falta de compreensão de todo esse mecanismo de captação, interpretação e sugestão, e aí reside um grande erro que nos induz a inúmeras conclusões equivocadas.
Uma coisa é ter uma perda de sensibilidade nos agudos e acreditar que se o som na nossa sala está igual ao que ouvimos ao vivo, e então ele está perfeito. Nesse caso os nossos ouvidos nos enganam, porque ele não consegue identificar a perda de informação nessa faixa. Outra coisa é o cérebro nos fazer acreditar em algo que não é real, criando uma sensação que não existe de fato.

Tudo isso agora ficou tão engraçado que se tornou comum ouvirmos coisas do tipo “até a minha esposa percebeu a diferença”, ou “até o meu filho de 8 anos me perguntou se eu tinha mudado algo”… como se essa “cumplicidade” pudesse dar mais confiabilidade e sustentação à sua percepção.
Que mudança é essa tão “significativa” que até um leigo percebe, mas um instrumento não consegue medir? Uma alteração sonora tão grande assim teria que resultar numa equivalente alteração na movimentação do ar na sala, e, novamente, isso só seria possível modificando o movimento dos cones dos alto-falantes, efeito esse que já sabemos que só ocorre com a mudança das características da corrente elétrica que modifica o campo magnético gerado pela bobina.
Veja bem que ainda falamos de componentes do sistema eletrônico de produção do som nas caixas acústicas, antes que alguém argumente que mudando a posição das caixas ou alterando a acústica haveria uma mudança real sem a alteração do movimento dos cones dos alto-falantes. Neste caso, trata-se de interação com o ambiente, mas, isso também pode ser medido com um microfone e um analisador de áudio, mas isso fica para outra vez.

Às vezes eu me pergunto… depois de tantos anos de informações sobre golpes, como pode ainda muitas pessoas, de vários níveis sociais e culturais, caírem no golpe do carro sorteado que requer o pagamento de um valor considerável antes da entrega. Como pode alguém ainda acreditar que pode comprar um bilhete de loteria premiado de um desconhecido na rua pela metade do valor do prêmio?
E insisto, não se trata de cultura ou posição social, pois uma colega advogada num grupo de whatsapp de colegas de profissão relatou ter perdido dinheiro num leilão falso. Ao ser questionada porque ela não tomou as precauções de praxe, verificando certificados e autorizações, ela respondeu que “tudo parecia tão sério”, e que até o “selinho de uma certificação tinha no site…”.
Isso demonstra como é fácil criar uma sugestão, para o bem ou para o mal.
Diga à uma pessoa que ela está pálida, com uma respiração estranha e com as pupilas muito dilatadas… ela é capaz de começar a passar mal de verdade.

Outro dia, num outro grupo de colegas de whatsapp, um revendedor de equipamentos de áudio comentou que tinha conseguido trazer para o Brasil um determinado acessório (se eu disser qual, vou expor a pessoa e isso é complicado). Ele comentou que tinha adquirido uma unidade desse produto para o sistema dele e que ficou muito impressionado com os resultados, e que quem ouviu também aprovou. Disse que trabalhou muito para trazer aquela “maravilha” para o Brasil, que o fabricante era muito renomado na área e que certamente todos se espantariam com o ganho de qualidade que o produto era capaz de oferecer.
Eu tenho certeza que, apenas com isso, muita gente já estava certa de que o produto era realmente bom sem sequer tê-lo conhecido.
Eu pesquisei sobre a tal “novidade tecnológica”. O “renomado especialista” era na verdade um amador na área do áudio, que trabalhara em outros segmentos e ficou desempregado, e muita gente que testou o produto não percebeu nenhum benefício. Indícios claros de mais uma daqueles “milagres” que custam muito caro, mas em que muitos acreditarão.

Certamente o “inventor” do produto percebeu como seria fácil convencer o consumidor de que, apesar da falta de evidências científicas e comprobatórias, a sua criação pudesse ser tão inovadora e com isso justificar um preço tão elevado.
Quantos produtos já não conhecemos no passado que viraram uma febre momentânea e desapareceram tão rápido quanto surgiram?

Se no caso desse produto recém-chegado ao Brasil alguém tivesse colocado um microfone de precisão e um analisador de áudio na sala (já que a sua interação não era elétrica) e verificado o comportamento do som, não teria percebido as reais qualidades do produto?
Um bom captador e um analisador de precisão seriam capazes de pegar detalhes que o nosso sistema de audição não conseguiria.
Por esse mesmo motivo se usa colorímetros para medir com precisão as cores, porque os nossos sentidos são limitados e passíveis de erros e sugestões.

besteira

O objetivo desta abordagem foi mostrar que o som não surge na sala ao acaso, que a movimentação dos cones dos alto-falantes vai agitar o ar de formas diferentes para produzir o som,  que a movimentação destes cones ocorre em compasso com as características da corrente elétrica que lhe é aplicada, e que qualquer pequena mudança sentida por nós pode ser vista e medida por instrumentos apropriados, sensíveis e muito precisos, e que hoje custam muito barato.
Na verdade, os instrumentos podem captar sim a realidade do que ouvimos. Eles apenas não conseguem captar o que sentimos. Mas esse estudo já está bem adiantado, e já se sabe até em que região do cérebro desenvolvemos os sentimentos e como ela reage. E a sugestão, como elemento modificador da percepção da realidade, está lá. Os cientistas já começam a entender esse mecanismo de criação de uma realidade inexistente.

Procurei, ainda nessa dissertação, destacar a imprecisão do nosso sistema auditivo, que é outro fato conhecido pela ciência e familiar aos profissionais da área.

Até aqui tudo simples, óbvio e mera aplicação de ciência pura.  Espero que as críticas não fiquem só na subjetividade ou na abordagem dos “mistérios da ciência”, pois, para alguns, se o homem não consegue desvendar a origem do universo, todo o restante da ciência está comprometido pela dúvida, e não há razão para o celular funcionar, para os computadores processarem, para a televisão mostrar imagens, para o tomógrafo conseguir “ver” o que temos por dentro, para o antibiótico cumprir a sua função no organismo, para o avião voar, e até mesmo a roda deve ser desacreditada.

Infelizmente, quando se fala em “Áudio Hi-End”, parece que voltamos aos tempos da caverna, e tudo não passa de bruxaria, o subjetivismo ganha dos instrumentos de medição, o cérebro se torna perfeito, nossos ouvidos se comportam como instrumentos perfeitos e de alta precisão, e os fenômenos mais simples acontecem de forma inexplicável pela ciência. Porque isso? Porque tem muita gente que ganha muito dinheiro com essa desinformação, vendendo ilusões muito caras para compradores mal informados que acreditam mais na sugestão do que na realidade, e gastam mais em placebo do que realmente na cura de seus problemas.
Enquanto não passarmos definitivamente por esse período de desinformação e de crença cega em ilusões, continuaremos testemunhando esses muitos absurdos que infelizmente vemos hoje no mercado de áudio de qualidade.

for the serious

11 Comentários

  1. Bom dia Edu !!!
    Voltou com tudo, hein?
    E mais uma vez arrasando com este artigo excelente.
    Acho que você está sendo um pouco pessimista, porque pelo menos no nosso grupo aqui no Rio o pessoal está bem mais consciente. Claro, os mais velhos e o pessoal que fatura com essas confusão toda não mudam, e nem vão mudar, é caso perdido, mas no geral o pessoal está bem mais consciente, eu percebo isso no dia a dia.
    Até a sugestão do cérebro que você menciona mudou bastante. Antes o pessoal recebia um cabo caro já animado com o investimento e cheio de vontade de sentir uma mudança, mas hoje eles testam primeiro e com tranquilidade avaliando o resultado, e não desejando profundamente uma melhoria.
    Teve uma dica que você deu para o amigo João Nunes, deve estar lembrado, de comprar tudo pela internet e colocar para testar por seis dias, se não notar diferença, pedir a devolução dentro do prazo legal sem explicações. O pessoal está fazendo assim, não cumpre o prometido, devolvem. E o vendedor diz que precisa amaciar por pelo menos 15 dias kkkk. Aí a gente diz para o vendedor que OK, amaciamos por 15 dias e se não gostarmos podemos trocar, aí eles dizem que não. O pessoal não é mais trouxa. O mercado está mudando sim.

    Estou antenado aqui no HiFi Planet e ansioso por novas publicações.
    Grande abraço meu amigo.

  2. Emílio,
    Obrigado por sempre prestigiar o nosso site.
    Sim, houve uma mudança, mas ainda vejo algumas coisas lamentáveis.
    Abração
    Eduardo

  3. Já cair algumas vezes nessas fantasias, inclusive de pessoas próximas que passava confiança, mas que no fundo só queriam ter alguma vantagem financeira principalmente. Posso até ser enganado novamente já que estamos sujeito a muitas coisas, mas agora estou mais atento e sempre procuro investigar algo quando preciso e claro ver as fontes.

    abraço.

  4. Perfeito.
    Existe uma mistura de interesses, de paixões, de ego e outros fatores que acabam contaminando as opiniões.
    Acredite, tudo é bem mais simples do que parece.
    Abraços

  5. Caro Sr. Eduardo
    O que acontece com esse mercado de áudio? Isso chega a dar nojo.
    Participo de um grupo de whatsapp que inclusive você faz parte também. É impressionante como tem gente que parece viver num mundo irreal, com conceitos que só podem sair de uma mente fraca. É por isso que o audiófilo é tão explorado.
    Eu me lembro a alguns anos, e acho que isso ainda existe porque não falta gente ingênua, que tinha um aparelhinho que você ligava na bateria do carro e fazia o carro ficar mais potente e econômico.
    Tinha gente que comprava essa porcaria e afirmava que percebia ganhos reais, e depois se constatou que só havia um capacitor dentro da caixinha que realmente não servia para nada, mas o fabricante não podia vender a caixinha vazia. A revista 4 rodas testou e afirmou que ele realmente não provocava nenhum efeito. Mas e quem dizia perceber diferenças? Acabaram se convencendo que foi só “impressão”.
    Parece que no áudio isso é ainda pior.
    As pessoas vivem de impressões e não de fatos.
    É como você costuma dizer, a evolução tecnológica serve para tudo, até levar o homem ao espaço, mas no áudio toda a ciência é rasgada e ingressamos num mundo de escuridão total, desconhecido e misterioso.
    Eu escolhi a profissão errada. Eu deveria ser inventor de bugigangas hi-end.

    Parabéns pela coragem de desafiar esses conceitos absurdos e de trazer informação realmente válida para todos nós.

    Eu gostaria muito de participar de uma audição em sua sala quando houver essa oportunidade.

    Saúde e paz !

  6. Conheci o Hi Fi planet há pouco tempo e tenho me dedicado à leitura de suas matérias.
    Enfim algo inteligente nesse mundo da música de alta qualidade de reprodução.
    Sou músico e audiófilo há muitos anos, e sempre lamentei o quanto esse mercado é explorado por pessoas sem a menor competência para tanto. Mesmos os meus álbuns são supervisionados por mim, porque se depender de muitos estúdios e seus “engenheiros de gravação”, não sai muita coisa que presta.
    Parabéns Hi Fi planet.

  7. O Eduardo sempre surpreendendo.
    Vivemos anos de enganação, mas percebo que o mercado hoje vem tomando um pouco mais consciência sobre o que é verdadeiro e o que é fake.
    Aquela super fantasia de cabos que faziam milagre, por exemplo, sumiu das discussões, e sei que boa parte dessa mudança se deve a este site.
    Um abraço

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