Projeto “A Caixa” – Parte VI – Revestimento Interno

O revestimento interno da caixa em detalhes.

Recebi um e-mail me questionando sobre a tal característica de “ajuste” das caixas depois de montadas.

O projeto dos caixas teve como ponto de partida justamente a possibilidade de permitir alguns ajustes posteriores.
O fato é que cada fabricante produz suas caixas com as características sonoras que julga adequadas, para tocarem de um determinado modo, numa sala que eles idealizam, com equipamentos que eles adotam e com inúmeras outras características que são escolhidas pelo fabricante de forma subjetiva. Talvez alguns se assustem quando digo que os fabricantes projetam suas caixas com critérios subjetivos, mas, sejamos honestos, cada sala é uma sala, com suas próprias características acústicas e impossíveis de serem determinadas antecipadamente pelos fabricantes, já que são inúmeras as variáveis que podemos encontrar numa sala. Além disso, o sistema eletrônico também possui características distintas, já que amplificadores, players, DACs, etc. não são padronizados. Seria ótimo que fossem, assim pelo menos um fator seria conhecido ao se projetar e construir uma caixa.
Fácil entender que em cada sistema uma determinada caixa terá um desempenho diferente, isso é óbvio. Então como pode o fabricante conceber uma caixa sem ter qualquer noção de onde e como ela será usada? Daí partimos do princípio que não existe uma caixa perfeita, pois não existe um sistema padrão.
Desta forma, o projeto das caixas, objeto desta reportagem, seguiu a condição primordial de permitir o maior número possível de ajustes, adequando-a a qualquer combinação de equipamentos, a qualquer tipo de sala, acústica e a inúmeras outras variáveis.
Até o final desta reportagem essa condição ficará bem mais clara e compreensível, pois teremos uma visão mais ampla do que pode ser feito com essa caixa mesmo depois de totalmente construída. Por enquanto já vimos que os volumes internos podem ser readequados, e que ela pode funcionar tanto em modo reflex como selada, o que já permite um amplo leque de ajustes.

Revestimento Interno

Agora vamos ao verdadeiro objetivo deste capítulo, que foram as soluções adotadas para realização do revestimento interno das caixas.

Novamente, depois de muitas pesquisas e cansativos conceitos técnicos (vou poupá-los disso), entendi que o melhor revestimento interno de uma caixa (que por mais que digam o contrário é realmente necessário) é uma combinação de diferentes materiais. Claro que é muito mais fácil para qualquer fabricante utilizar somente um produto nesta etapa, mas para conseguir o melhor resultado é importante agir de vários modos diferentes sobre as ondas sonoras que surgem no interior de uma caixa acústica, e para isso é importante utilizar materiais que produzam efeitos distintos, já que não existe uma solução que possa abranger todas estas necessidades.

Simplificando, o revestimento interno de uma caixa acústica tem por objetivos:

  1. Eliminar ou até mesmo atenuar as reflexões internas e as ondas estacionárias no interior da caixa, que degradam a qualidade sonora
  2. Ajustar o que se chama de “compliância” da caixa
  3. Amortecer as ressonâncias das paredes do gabinete, tornando a caixa mais inerte (note que essa preocupação é sempre constante).

Quem deve produzir som são os falantes, não as caixas. Alguns fabricante afirmam que usam as ressonâncias do gabinete a favor do resultado desejado, aproveitando-os de forma inteligente. Isso é bobagem. A caixa deve ser “transparente”, ou seja, não deve existir dentro do sistema.

O primeiro tratamento interno da caixa já foi feito, como vimos, com a aplicação de uma espessa camada de tinta emborrachada, que ajudará a reduzir as ressonâncias das paredes da caixa. O segundo material que foi recomendado por vários fabricantes, e que eu não achava tão importante, trata-se de manta de algodão, material muito utilizado em tapeçaria.
Ele é muito útil para aumentar o amortecimento das vibrações das paredes da caixa, além de promover algum amortecimento das ondas acústicas. Porém, para que funcione, ela deve ser colada totalmente à parede interna das caixas, sobre o revestimento emborrachado. Outra providência é a utilização de duas camadas deste produto, para se ter um resultado realmente efetivo.
O terceiro material aplicado foi a lã de vidro. Houve uma unanimidade entre os fabricantes de que , apesar de ser cancerígena, causar coceira ao ser manuseada e outros incômodos,  o sacrifício dispensado na sua aplicação valeria a pena, já que, segundo eles não existe ainda nada melhor para se usar dentro de uma caixa acústica.
Avaliei a possibilidade de manta acrílica, algodão industrial, fibras sintéticas e, acredite, almofadas de palha de aço !!!  Existem inúmeras soluções disponíveis em páginas de revistas, livros e na web, das mais simples até as mais bizarras, mas nenhuma capaz de substituir esse material com a eficiência que ele proporciona nesta aplicação.

Portanto, resumindo, a solução final ficou assim: 14 demãos de tinta emborrachada (sendo a última bem densa), duas camadas de manta de algodão, e duas camadas de lã de vidro bem espessa. Não adianta economizar aqui. Colocar uma única camada de um material e achar que assim revestiu como deveria é um engano, pouco material não é capaz de produzir efeito significativo no resultado final.

Importante: cada camada de revestimento tem um procedimento bastante específico de aplicação, como segue:

A primeira camada de manta de algodão deve ser aplicada totalmente aderida à superfície da parede da caixa. Assim, deve-se “pintar” com cola toda a superfície onde será aplicada a manta:

Em seguida, deve-se moldar as peças de manta (que foram previamente recortadas nos tamanhos adequados) contra as superfícies da parte interna com a cola:

Os reforços centrais também devem receber cola e uma camada da manta. Para mantê-la no lugar até a secagem da cola, sugiro utilizar cintas de nylon com trava, que podem ser cortadas posteriormente com uma tesoura ou um alicate de corte:

Depois de colada a primeira camada da manta, devemos aplicar a cola para a segunda camada que será pressionada com a cola sobre a primeira. Mas, agora um detalhe importante: não se deve aplicar a cola em toda a superfície da primeira manta já colada ou da peça a ser colada, para não “selar” as camada. Desta vez, ao invés da cola PVA, deve-se usar cola de poliuretano, e apenas no formato de um quadrado com um “X” dentro (incluí ainda um “ponto” dentro da cada triângulo formado). Esta dica,  vinda de um fabricante de caixas inglês, é muito importante para obter o resultado desejado. Veja a seguir o que foi sugerido:

Depois de pronto, esta deverá ser a aparência interna:

A caixa superior deve receber o mesmo cuidado, porém com apenas uma camada. Mesmo sendo o tweeter selado, convém aplicar o material em seu compartimento para amortecer eventuais ressonâncias:

Acabamento na caixa de médios/agudos:

Deve-se tomar bastante cuidado para não deixar cair cola na parte externa da caixa ou danificar sua pintura durante os trabalhos. Convém sempre proteger as superfícies externas.

O vão interno da parte superior da caixa, onde será instalado o divisor de frequências, deve ter sua parte posterior (que ficará livre) também revestida, assim como o suporte central de fechamento da tampa de acesso (veremos isso em detalhes adiante):

Antes da colocação da lã de vidro, os cabos de ligação dos falantes de graves já devem ser passados por furos previamente feitos nos compartimentos. Os furos devem ser feitos individualmente, e bem justos à passagem dos cabos (posteriormente selados com cola). Um projetista deu a dica de trançar os fios antes de ligá-los aos falantes, mas existe um critério para isso, dependendo do cabo.
Na foto abaixo vemos um dos cabos (torcido) descendo para o compartimento de graves inferior, enquanto o outro permanece no compartimento superior. Importante: os cabos devem ser totalmente independentes, para que permita algumas opções de ligação que serão vistas posteriormente. Cada cabo deve alcançar o respectivo alto-falante, e prolongar-se até o compartimento do divisor de frequências.

Cabos utilizados em todas as ligações internas. Larga bitola e de prata:

Em seguida deve ser feita a colocação da lã de vidro bem espessa. A resistência do material permite que ela seja instalada sem cola ou elementos de fixação, desde que bem moldada e apoiada de forma adequada:

Neste caso, o woofer inferior recebeu uma segunda ligação até o painel traseiro. A razão disso será explicada oportunamente:

A seguir, um dos compartimentos traseiros recebendo densa camada de lã de vidro. Algumas pessoas defendem que a caixa deve ser totalmente preenchida com o material, mas os projetistas garantem que isso não é necessário. De qualquer forma, como esta caixa possui fácil acesso ao seu interior, qualquer mudança posterior é bastante simples.

Com relação à caixa superior, somente o compartimento do alto-falante de médios recebe a lã de vidro, nas paredes opostas a do falante, preenchendo totalmente o vão superior (escondido atrás do compartimento do tweeter). É bom lembrar que todos estes compartimentos, exceto o do tweeter, tiveram seus volumes calculados no projeto.

Finalizamos aqui a etapa do revestimento interno.

4 Comentários em Projeto “A Caixa” – Parte VI – Revestimento Interno

  1. Olá, Eduardo!

    Primeiramente quero dar meus parabéns por seus artigos, muito esclarecedores e informativos! Aprendi muita coisa por aqui. Pessoas como você, que compartilha seus conhecimentos com todos é que fazem a diferença!

    Estou fazendo o revestimento interno de um sub SW112 da Klipsch que é todo “pelado” por dentro. Como não possui nenhum revestimento interno ou travas, o sub faz muito ruído de vibração, principalmente na placa do amplificador. Queria saber se poderia usar a tinta automotiva comumente chamada de “bate-pedra” nela. Ela pode ser usada no lugar dessa tinta emborrachada que você usou?

    Abs,
    George

  2. George,

    A tinta bate-pedra é mais protetiva, para dar mais resistência numa área de acabamento que pode sofrer impactos.
    Recomendo usar a emborrachada. pesquisei muito sobre estas duas opções na época, e a segunda foi a mais indicada.

    Abraços

  3. Olá, Eduardo

    Obrigado pelo rápido retorno. Poderia me passar o nome da tinta? É que eu não entendo nada desse assunto, falei na loja que queria uma tinta emborrachada para passar em uma caixa acústica e o vendedor falou que era essa ‘batida de pedra”, que é a base de água (diferente da “anti-ruído” que o pessoal do fórum anda usando e precisa esperar 15 dias para curar). Acabei comprando ela, mas fiquei na dúvida se usava ou não.

    O pior é a economia dos fabricantes de caixas, já que você não paga barato e ainda tem que consertar o desleixo deles com o revestimento interno. Vi muitos subs de marcas consagradas e caras desmontadas e é lamentável a pobreza que é o revestimento interno delas, no máximo travas e acrilon.

    Novamente agradeço por sua atenção.

    Abs,
    George

  4. George,

    Desculpe a demora em lhe responder.
    Tivemos um problema com a postagem de comentários do site e estamos restaurando parte deles.
    Existem várias marcas de tinta emborrachada, e quanto mais elástica a tinta melhor. A tinta de bate-pedra que se vende normalmente no mercado é muito dura.
    É importante aplicar várias camadas para que o efeito seja obtido.
    A tinta emborrachada da Anjo atendia bem a esta finalidade, e deve ser ainda uma boa opção.

    Realmente, quando abrimos algumas caixas “hi-end” do mercado, ficamos sem entender como podem custar tão caro, e ainda receber elogios de muitos avaliadores.
    A maioria não vale nem metade do que se pedem por ela. Lamentável !!!

    Abraços

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