Minha caixa acústica é Classe A (bem… foi há 5 anos…)

Freqüentemente observo nos fóruns de discussão, ou em encontros de amigos, comentários do tipo “minha caixa é classe A Stereophile… bem… foi em 2003…”, ou… “meu CD player ganhou classificação “Diamante Negro”, em 1994…”
Apesar de bastante comum, essa situação não seria admissível se entendêssemos o seu verdadeiro significado, e suas razões de fato.

É clara a intenção do apaixonado dono de um equipamento (ou seu interesse em vendê-lo) em querer valorizar o seu equipamento.
Listas estabelecem graus de classificação aos aparelhos testados, e isso acaba associado ao valor de qualidade do aparelho, conferindo-lhe maior destaque em relação aos demais.
Porém, estes julgamentos não são, na maioria das vezes, confiáveis, e já nascem viciadas.
Em outra direção, temos a questão da evolução técnica, e é este o ponto que vamos entender melhor neste tratado.

Apesar do sentimento de saudosismo e da empolgação com que alguns têm com equipamentos mais antigos (muitas vezes conhecidos por “vintage”), a verdade é que eles vão sendo limitados pela própria evolução técnica.
Claro que um CD player Meridian ou uma caixa eletrostática da Quad (em bom estado) têm, normalmente, melhor desempenho que um novíssimo player comum de U$100, ou que uma caixa recém lançada de um reluzente mini-system na prateleira do supermercado, respectivamente. Cada um em sua categoria.

É preciso observar que a cada ano a indústria, depois de investir pesado em seus departamentos de engenharia de produto, apresenta novas soluções técnicas que, na maioria das vezes, superam o que já havia disponível. Não há como comparar a tecnologia de um tweeter atual com aquela de dez, seis ou dois anos atrás. Nem quero criar divisores tão amplos, comparando tweeters de diamante com aqueles de papel ou seda concebidos em anos distantes. Novamente, vamos comparar coisas semelhantes.

Seria ilógico a indústria de alta-fidelidade (ou hi-end ), investir tanto tempo e dinheiro neste mercado tão específico e competitivo para piorar o que já existe. Claro que isso pode acontecer, mas não é da rara exceção que estamos falando, e sim da regra.
Quem comprou uma TV de plasma há oito anos, e pôde comparar com as atuais, sabe que hoje compraria uma TV muito melhor e por um preço muito inferior ao que pagou na outra oportunidade.
O mesmo acontece com projetores, controles remotos, DVD players, telefones celulares e tantos outros dos mais diversos segmentos. Mas, no áudio, parece que novamente o misterioso mundo “hi-end” nos brinda com situações inimagináveis.

Tomemos como exemplo a revista Stereophile, que periodicamente elabora uma lista com os melhores aparelhos já testados pela sua equipe de avaliadores.
Se observarmos com atenção, encontraremos sempre ao final de cada grupo de equipamentos, um texto explicando que alguns aparelhos que constavam na relação anterior foram excluídos. As razões são: não existe mais distribuidor naquele mercado, o equipamento saiu de linha ou, entre outras, “o aparelho não é mais apreciado há muito tempo, e assim não é mais possível ter certeza de sua qualificação”. Essa é uma forma de dizer: “ele envelheceu, e provavelmente foi rebaixado de categoria”.
É óbvio que chega um momento que os equipamentos começam a ficar “relativamente obsoletos” em relação aos lançamentos do mercado.
Uma caixa acústica hoje, do mesmo patamar de mercado de uma caixa produzida há alguns anos, apresenta um resultado melhor (novamente…. em regra) que aquela “velhinha”, por mais que seus admiradores tentam se convencer do contrário, ou pior ainda, tente convencer os outros disso.
Se o interesse não for exibicionismo, tentativa de valorização até para obter melhor preço e maior procura numa venda próxima, trata-se mesmo de saudosismo ou ilusão própria.
Não adianta querer que um equipamento ganhe mais prestígio dizendo ele que teve uma alta qualificação há alguns anos. Muito provavelmente, com a desatualização tecnológica, com o envelhecimento dos componentes (muito mais comum do que se imagina), e com as exigentes necessidades das novas tecnologias, ele caiu alguns (ou todos) degraus desde aquela avaliação.

Vejamos hoje os equipamentos de reprodução de discos Blu-ray, que foram logo adquiridos pelos mais apressadinhos por conta de avaliações entusiasmadas de revistas e outros veículos formadores de opinião. A maioria está obsoleta, e seus proprietários têm dificuldade para vendê-los ou conseguir um preço minimamente razoável comparado ao que investiu.
Um dos argumentos para valorizar e facilitar a venda, muito utilizados por estes proprietários, é dizer que seus aparelhos são top em testes realizados por aqueles avaliadores, e muitos compradores se convencem de que estão fazendo um bom negócio por achar que estas avaliações são eternas, não envelhecem.

É preciso ser coerente com as avaliações críticas. Ou o equipamento é bem qualificado, ou já foi. Mas, o “foi” será no sentido de que está ultrapassado, e não de que já foi avaliado e que sua qualificação ainda é necessariamente verdadeira.

Não quero com isso desvalorizar os equipamentos que um dia foram referências, mas tão somente colocá-los na atual realidade de mercado. Os grandes equipamentos de ontem ainda podem ser muito bons hoje, somente já não competem com a maioria dos seus similares mais atuais.

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